COLUNA FANTASMA

Contos, crônicas e outros devaneios.

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Terra Blog

09.10.07

WORKAHOLIC

categorias: Contos

Tudo é meia-luz e a música é ouvida em alto e bom som. A decoração do local é perfeita nos seus mínimos detalhes, desde o palco bem ornamentado e iluminado que lembra os da Broadway, ao bom gosto dos móveis do local, sejam mesas, cadeiras ou sofás. Os novos freqüentadores ao entrarem ali têm a consciência de que se trata de lugar de nível.

No centro das mesas, os mais caros tipos de whisky são os donos da situação, além de comandar a gritaria nos momentos oportunos. Ali, a tensão e o estresse do cotidiano cedem espaço para as mais curiosas histórias e os mais diferentes tipos de pessoas. Gente importante e engravatada do setor público e privado circula pelo local, assim como belíssimas mulheres maquiadas e provocantemente bem vestidas. Em underwear.

O primeiro show vai começar, os tons de azul da iluminação do clube, mesclado às sombras ficam mais densos. A platéia, noventa por cento masculina, se cala. Uma primeira e belíssima mulher, das pernas bem torneadas, bumbum redondo e acentuado e seios fartos aparece no palco. Alguns surros espalhados pelo clube dizem “É aquela, que foi capa da revista do mês retrasado...”.

Ela se dirige lentamente em direção ao centro do anfiteatro e se agarra a um bastão, uma espécie de pilastra circular metálica, fixada do tablado ao baixo teto do clube. A música barulhenta dá vez a uma canção instrumental, tocada pelo grupo de jazz que está postado em um dos cantos do palco. A luz do clube fica mais turva, e a perfeita iluminação acompanha agora apenas a silhueta da stripper, que começa a dançar sensual e libidinosamente, esfregando-se e deslizando pelo bastão. A mesa de Souza é a primeira em frente ao palco, lugar VIP no clube, mas ele não é um freqüentador assíduo. Na verdade, nem gostava de garotas de programa. Ele foi ao clube com alguns amigos do trabalho que muito insistiram e mesmo assim, só depois que uma reunião que começava às vinte e três e trinta foi cancelada. Tinha grande cargo de chefia na instituição que trabalhava e não era raro sair às duas, três da manhã do trabalho. Sua esposa não gostava, aliás, ela odiava, mas se resignava.

A fogosa stripper sorri para Souza, mas ele, atento, não perde um detalhe da garota. Esta, por sua vez, fica cada vez mais impressionada com ele, tira o sutiã e caminha na direção da mesa e, seminua, deixa cair a linda peça do seu mínimo vestuário no colo de Souza. Os demais gritam, bradam, assobiam e aplaudem. Uma bagunça só. Neste momento, quando Souza está perplexo com a beleza da moça, seu telefone toca. Pelo identificador ele nota que é sua esposa. Antes de atender, ele puxa Carlinhos pela gravata e diz “Eu falei que ia dar merda!”. “Não atende, ô Souza, deixa de ser bundão!”. Ele atende um pouco distante da área vip, mas ainda em meio ao barulho e sua esposa começa o interrogatório.

- Já perguntei, e vou perguntar pela última vez, Souza! Ande você está? Você disse que viria pra casa!

E ele, tentando se esquivar de uma ruiva que senta no seu colo no exato momento, responde como se suplicasse:

- Ok, Lídia, ok amor. Desisto. Eu tô numa casa de stripper, e uma delas está sentada no meu colo. Fui carregado pra cá depois de uma reunião, mas é apenas para desestressar! Eu juro que não fiz nada demais! Você sabe que eu te amo!

Barulho da linha telefônica.

- Souza, você é um grande filho duma puta mesmo! Quando você vai parar com isso? Seu cachorro! Já falei que este seu jeito vai acabar com nosso casamento!
- Mas amor...
- Não quero papo, Souza! Humpf! E ainda me vem com essa desculpa esfarrapada de que está num puteiro! Antes tivesse! Pode ir logo dizendo que reunião é esta que você está!

 

 

 

Obs.: baseado em uma zombaria do colega de trabalho, Alan, sobre meu chefe que é tarado. Por trabalho.

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