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Contos, crônicas e outros devaneios.

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Terra Blog

27.08.07

TORCEDORES

categorias: Contos
Revoltada com a baixa condição técnica do time do Flamengo, que estava a um jogo de ser rebaixado para a segunda divisão, uma facção da maior torcida organizada do clube tomou uma medida drástica e extrapolada contra a situação.

A atitude desesperada não consistia em apedrejar o ônibus dos jogadores ou pichar a sede da equipe. A decisão tomada pela torcida era muito mais radical e, de fato, um crime. Como resolução do problema, seqüestrariam a mãe do jogador símbolo da má fase do time, aquele que era sempre vaiado, xingado e onde a culpa recaia sempre que o time perdia: o zagueiro Carlão.

Carlão é um desses jogadores contratados por meio de um dêvêdê contendo seus melhores momentos e geralmente é apadrinhado de algum empresário. Jogadores assim não ganham lá um grande salário comparado aos astros de um time, além de se tratarem-se do tipo bem típico de atleta que tem deficiências técnicas nos fundamentos de passe, chute, marcação, cabeçada e, mesmo assim, o técnico acha que ele joga bola enquanto o mundo vê o contrário. Mas enfim...

Era usual ver Carlão entregar o jogo ao adversário com um gol contra, uma furada, uma bola mal matada, um drible dentro da própria grande área, enfim, as lambanças eram rotineiras e pitorescas. E para aqueles torcedores, isto, de forma alguma, poderia acontecer no último jogo do campeonato, onde o rubro-negro precisava vencer para escapar da degola do rebaixamento para a segunda divisão.

Com o plano elaborado e a vítima escolhida, lá foram eles e algum tempo depois, já no cativeiro, os bandidos devidamente uniformizados, chegavam com a vítima.

- É, mané, o Carlão foi uma ótima ixcolha! – Disse um deles, como todos, com forte sotaque carioca.
- Também achei, meirmão! Vâmo tirar esse otário do Mengão!
- Meu filho não é rico, nem tem contrato certo ainda com o time, ele não vai ter o dinheiro pra pagar o reixgate! – Disse a pobre senhora em lágrimas.
- Cala a matraca dessa veia, aí! Bota a mordaça nela também!
- É, e arranja maix umaix camisaix do Mengão aí que tem unhix chegadoix aqui sem uniforme de trabalho!

E se aproximando da vítima, agora amordaçada e vendada, um deles falou:

- Dona Jacira, tu sabe por causa de quê a senhora foi seqüeixtrada? Por causa que teu filho num joga porra nenhuma! – Disse a segunda frase de forma enfática e pausadamente.

Escutou apenas os grunhidos de Dona Jacira tentando falar. E continuou:

- Maix, a culpa num é desse filho da puta, sabe cumé, dona? É da própria puta, a senhora, com todo reixpeito, que botou um zagueiro infilix daquele no mundo! Num tivesse parido uma dixgraça daquela, ele num tava no meu Mengão, botando o time na zona do rebaixamento!

Alguns minutos depois...

- Tuuuuuuu – tuuuuuuuu – tuuuuuuu.
- Alô?
- Carlão?
- É ele. Quem fala?
- Só um inxtante. Pode falar, véia... – Disse ele em tom baixo, tirando sua mordaça.
- Meu filho, me ajuda, me ajuda, me seqüeixtraram, eu tava indo fazer o sacolão, meu filho! – Chorava aos prantos e berros a mãe de Carlão ao falar com o filho.
- O que é isso? Meu Deux, mamãe? – Perguntou um Carlão desesperado.
- Ô Carlão... – Falou um dos torcedores seqüestradores.
- Seus ordinárioix, bandidoix! O que fizeram com mamãe?
- Calma, rapá, calma. Sua mamãe vai ficar bem. Noix, da FOREVIS FRA, vâmo tratar ela igual o Zico com a redonda: na maciota. – E todos os outros capangas riram.
- O quê? FOREVIS FRA? O que é isso?
- É a FORÇA REVOLUCIONÁRIA E VISIONÁRIA DO FRAMENGO! – Entoou a voz de forma vigorosa para dar destaque ao nome da facção. E nisso, ouviu-se gritos, palmas e assobios ao fundo.
- Tudo bem, tudo bem. E quanto vocêix querem? Não tenho muito dinheiro, maix posso ver... - Falou Carlão com voz chorosa, mas foi interrompido pelo meliante.
- Pelo reixgate da senhora sua mãe, nóix quer uma coisa simplix: fique de fora hoje do último jogo do Mengão! – Mais uma vez gritos de apoio e incentivo, palmas e assobios.
- Como é? – Se surpreendeu Carlão.
- Isso mermo! Depoix do jogo, se tu num participar, o Mengão ainda vai tá na primeirona. Aí, a FOREVIS FRA cumpriu o papel e noix solta tua mãe!

Carlão limpou as lágrimas e instável emocionalmente e com o ego dilacerado, perguntou com a voz bem postada.

- E se formoix rebaixadoix meixmo assim?
- Se tu tiver ralado peito, aí a culpa num é tua! A FOREVIS FRA seqüeixtra a mãe do culpado pela derrota. Nóix sempre encontramoix um culpado! Amanhã, depoix do jogo, conversamoix!

Bom, a notícia vazou e era sabido de toda a imprensa que a Operação Segundona foi montada Pela Polícia Civil do Rio de Janeiro para solucionar o caso do seqüestro da mãe de Carlão, que a esta altura era uma agonia só.

O fato acontecera na manhã do tal jogo decisivo. Carlão falou com o técnico e pediu uma reunião para avisar a todos sobre o corrido e o porquê de não jogar aquela, que talvez seria a partida mais importante da existência do clube. Todos entenderam e concordaram com a situação dando força ao zagueiro. E com o fato ocorrido, o treinador do Flamengo foi obrigado a escalar Nilsão, um zagueiro, visivelmente mais habilidoso e melhor jogador que Carlão. E por que o melhor jogador estava na reserva? Bom, isto são coisas que só o futebol carioca explica...

A partida começou e com trinta minutos, o zagueiro Nilsão já tinha salvo um gol em cima da linha, provocado a expulsão de um atacante e como senão bastasse, fez de cabeça em um escanteio, o único gol que dava a vitória ao Flamengo e tirava o time do rebaixamento. Continua --->
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