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Contos, crônicas e outros devaneios.

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Terra Blog

18.10.07

TIO PATINHAS OU O SEM NOÇÃO IV

categorias: Contos
Do bangalô em que se hospedavam no litoral nordestino, a brisa que batia na varanda era extremamente convidativa para uma caminhada na praia. Sobretudo quando se está toda serelepe e o namorado dorme o sono e o ronco dos hipopótamos.

Definitivamente, aquela cena dantesca era de dar asco. Catou a saída-de-praia, chapéu, óculos escuros e pôs-se a caminhar. Contemplava os coqueiros, a areia branca, e o sol de rachar às quatorze horas e trinta e sete minutos. Saíra de casa sem beber água e já se sentia completamente desidratada embaixo daqueles quarenta graus na sombra que faziam na cidade, conforme previsão do tempo do jornal de meio-dia. “Também, isto é hora de caminhar na praia? Não fosse meu namorado preguiçoso e espalhado na cama, estaria fazendo amor uma hora dessas. Talvez até dentro da banheira ou debaixo da ducha gelada. Humpf, homens!”. Ela se recompôs de seus pensamentos libidinosos e avistou o que parecia ser um sonho: o carrinho de picolé.

Chupando picolé de mangaba ela já não sentia mais sede. Porém, caminhou por mais dez minutos e desistiu de ir até a outra ponta daquela praia. Ela nunca fora dada aos exercícios físicos, a não ser aqueles que se pratica sem roupa, e caminhar quatrocentos metros para ela foi a gota d’água.

Assim que ela chegou em casa, viu o namorado acordado e sentado à beira da cama. Mal ela chegou e ele já foi dizendo:

- Nos assaltaram!

E ela perplexa:

- Como assim, meu Deus? - E correndo para checar a bolsa, continuou.
- Mas como foi? Entraram no quarto, lavaram a máquina digital, sua carteira, diz logo, ô infeliz!
- Antes de dormir o dinheiro estava todo dentro da nossa caixinha. Mas quando acordei, fui checá-la por acaso...E descobri que nos roubaram dois reais! Dá pra acreditar?

Ela, estarrecida, soltou um leve sorriso de canto de rosto, como se esperasse o namorado falar “Brincadeirinha, amor!”, mas ele continuou sério. Diante disto, ela o olhou com desprezo (daquele jeito bem feminino, cujo se baixam os olhos e as sobrancelhas) enquanto seu namorado ainda resmungava a falta dos dois reais. A feição dela mudou, assim como o restante da viagem, que não foi mais a mesma coisa. Até porque, depois daquilo, o rapaz dava mais atenção à caixinha do que a ela.

Voltando da viagem, já no aeroporto, após pegarem as bagagens...

- Ah, toma. – Disse ela.
- O que é isto? – Ele indagou, olhando a moeda de cinqüenta centavos que a namorada acabara de lhe colocar na mão. E ela, muito irônica, disse:
- Acredita que encontrei na praia o ladrão que nos assaltou? Eu o agarrei pelo pescoço e fiz devolver o que restava do dinheiro que ele levou da gente!
- Jura, amor? E por que você não me disse? Como você sabia? Quem era o ladrão?
- O ladrão era um picolezeiro. Que por sinal, vendia um excelente picolé de mangaba!

Virou-se e foi embora. Após alguns passos distantes do namorado, no saguão do aeroporto...

- Júlia!

Ela se virou, mais serena, disposta a conversar. E ele:

- Não falei que tinham assaltado a gente?!
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