21.09.07
PÉ DE PANO
Por conta de alguns traços de machismo que ainda carrego – apenas os dez por cento necessários para que um homem não aceite um fio-terra – nunca fiquei surpreso em saber que algum homem traiu sua parceira, seja ele casado ou não. E o que me faz pensar isto é a mesma lógica das minhas reações de assustado por uma amiga me dizer que ficou com dez caras numa micareta, e sorridente por um amigo que ficou com dez garotas na mesma folia. Mas entendam, não discrimino, odeio isto. Só que a reação é diferente, não tem como negar. Eu não demonstro, mas sinto isto por dentro.
Isto é ruim? Ruim, não. É ridículo. Porém, por mais que eu me esforce, não consigo extinguir estes machismos que adquiri sei lá como. Vai ver que incorporei e alimentei isto através da sociedade no geral, de amigos, da minha criação, das inúmeras revistas de mulher pelada que coleciono ou por qualquer outra desculpa banal que você mesmo queira dizer. E por que me sinto tão controverso e/ou incoerente? Por que falamos de relacionamentos entre homem e mulher, e se todos nós temos hormônios e genitálias, porque não teríamos os mesmos tratamentos? As mulheres são muito mais organizadas, responsáveis e inteligentes que os homens (e isto não é lobby pró-feminismo, apenas a verdade), e talvez por isso eu fique encafifado, pois as mulheres estão sendo tão burras quanto nós homens, que trocam tudo por nada, uma família por uma mocréia, uma vida conjunta por uma noite e por aí vai. As mulheres têm que ser muito mais grandiosas que as pequenezas de nós, homens. O problema, óbvio, é a questão da mão-dupla, afinal, por que elas darão a vida em um relacionamento se muito homem não dá? E antes ser burra a ser chifruda sozinha.
É por isso que, se nunca fiquei surpreso com o fato dos homens serem infiéis, também não tenho mais achado tão diferente quando as mulheres o fazem. Como eu disse, direitos iguais. Nenhuma mulher merece se matar pelo relacionamento se o bonitão está lá cagando e andando. E acho que agora cheguei ao ponto ideal para ilustrar o que quero dizer.
Conheci dois caras destes que pensei que nunca mais encontraria na vida. Dois caras boa pinta, com bons empregos, nível intelectual elevado, casados, tem filhos, mas daqueles que se julgam os machões da parada: “Porra, saí no sábado à noite, peguei uma gata!”, disse ele. “Ué, mas você não é casado? Que papo é esse de que saiu no sábado à noite?”, perguntei curioso em meio a risos, ao que ele respondeu: “Rapaz, lá em casa quem manda sou eu!”.
Acreditem, escutei esta ladainha um bom tempo. Nem para os caras usarem umas frases mais legais. Reações como estas são tão arcaicas e clichês, mas tão clichês, que até as frases são batidas: “Lá em casa que manda sou eu!”. Putz...Mal ele se dá conta que, neste exato momento, quem pode mandar na casa dele, mandar na mulher dele, no sentido porco da frase, não é exatamente ele.
Creio que todos sabem que a coisa mais correta a se fazer quando vem algum desejo de querer trair é pular fora, ser franco com seu igual, mas quem pensa assim ou consegue fazer isto é a grande minoria. Logo, aquela sua mulher – aliás, sua não, porque, numa boa, você não deve tratar sua mulher assim – a mulher de um desses caras, de tão destratada, de tão carente, de tão humilhada e ressabiada o que vai fazer? Arranjar um pé-de-pano.
Pé-de-pano é o cara dito profissional. É aquele que foge só de meias quando um desses maridões de neandertal chegam em casa. Ou ainda é aquele que, esperando o machão ir embora de casa, tira os sapatos e sobe as escadas só de meias para não fazer barulho, se escondendo no quarto do filho menor que foi para a aula. E ao contrário do que os cornos pensam, o Ricardão, o outro, o pé-de-pano não é um filho da puta. O filho da puta é o próprio corno. O pé-de-pano é apenas aquilo que a mulher desses caras vem pedindo e querendo deles há muito tempo e os mesmos não o são: um homem.
Não estou levantando bandeira de fidelidade aqui, até porque já fui infiel e cada um faz o que quer da própria vida. O que estou dizendo é que, homem que é homem não destrata a mulher com quem ele está e como senão bastasse ainda sai contando isto como se fosse vantagem. Quando conheço um homem que destrata a própria mulher do jeito que estes dois caras o fazem, já penso: “A mulher desse aí fica com tesão toda vez que o marido sai de casa.”. Caras assim estão errados duas vezes. Primeiro porque não são leais com as pessoas com quem estão. E lealdade é muito diferente de fidelidade. E segundo porque ainda saem contando para Deus e o mundo que destratam as mulheres em casa, que dão uma meia-assistência (“Ah, terça-feira eu dei um trato de leve na patroa e agora ela está mansinha) etc etc etc. Numa boa, se você não trata bem sua mulher, você é um chifrudo em potencial, mas até aí tudo bem, só você sabe. Agora, se é você “quem manda em casa” e ainda conta aos outros, aí meu amigo, todo mundo sabe que você é corno. E o pior: você quem contou.
Li um e-mail destes bem virais certa vez cujo dizia que, mulher insatisfeita é uma máquina colocadora de chifres, o que é a mais pura verdade. Ela pode até se arrepender depois, mas esta é a primeira fase. E se na segunda fase ela gostar? E se houver a décima quarta fod, digo, fase? E se ela teve com o pé-de-pano aquele orgasmo que não sente com o marido, namorado, o que for, há muito tempo? Porque, como nós bem sabemos, as mulheres não traem a esmo como os homens. Se ela traiu, cuidado que pode ser sinal de uma paixão, o que não é um imperativo, afinal, o filme mais repudiado por qualquer homem é Infidelidade, com Richard Gere e Diane Lane. (Não recomendo.). E na boa, se um personagem cavalheiro, amoroso e gentil igual o do filme foi traído, quiçá você, que trata mal sua mulher. E aposto que sua esposa ou namorada não te acha mais atraente que o Richard Gere.
Enfim, ilustrei as duas peças raras aqui porque ainda penso que não existam tantos homens assim, do tipo “Sou foda, como todo mundo, minha mulher boazinha não descobre e nunca fará nada porque é louca por mim!”. Mas se você se identificou com os dois maus exemplos aí, rapaz, faz o seguinte, já vai ficando íntimo do pé-de-pano, pegue o telefone dele. Assim, quando você pensar em chegar mais cedo em casa, dá uma ligadinha antes. Não vai ficar bem para você e nem para ele pegá-lo com a boca na xoxo, quer dizer, na botija. Além do mais, você pode acabar atrapalhando um orgasmo fantástico que sua mulher teria. O que vai deixá-la irritada e insatisfeita. E, como já expliquei, mulher insatisfeita...