De todos os tipos de pessoa, o interesseiro é um dos que mais me impressiona. Fáceis de identificar, estes tipinhos são aqueles que sempre te procuram para pedir algo, sem cerimônia alguma, em vantagem de si e que, obviamente, só pode vir da sua pessoa naquele momento. Pode ser um serviço, um presente, dinheiro etc etc etc. Eu sei, é um tremendo rótulo, mas que o colou não fui eu. E, produto com embalagem ruim, não vende, fica mal falado e todos reconhecem.
De qualquer forma, você, claro, tarimbado e sabendo identificar bem um destes, na hora que vê que ele te procurou, enquanto escuta toda a ladainha de sempre, já pensa: “Será que ela pode pular esta introdução e dizer logo o que quer?”.
Mas os piores interesseiros são os consangüíneos. E o exemplo clássico é o parente que só te vê em festas da família, nas quais você geralmente está contando a hora de ir embora, e ele chega embriagado, com aquele papo de amo você pra cá, somos família pra lá, chora e no meio da semana te liga para, advinha? Pedir empréstimo. É inevitável. Por isso, cuidado com esta categoria de malandro, pois são astutos e tanto as demonstrações bêbadas de afeto, quanto os pedidos de ajuda financeira são feitos, invariavelmente, na presença de mais uma porção de familiares. O que acaba o obrigando a dar o dinheiro – ou você conhece algum parente que paga empréstimo? – àquele seu amado primo-terceiro, da sua prima adotiva, filha daquele tio que você vê raramente, pois ele mora em outro Estado.
Menos pior que esta situação é aquela em que o pedinte usa de subterfúgios para que você não tenha chance de dizer um não bem sonoro. Você vai receber uma ligação inesperada, no meio de uma tarde de sexta-feira, em plenas férias, com sua mãe dizendo:
- Meu filho, sua tia pediu pra eu ver se você poderia levar sua prima, hoje à noite, no ensaio do coral de cânticos religiosos dela... - Não vou, não, mainha. - Mas meu filho... - Ah, mainha, a senhora arranjou a presepada, agora dá um jeito. Tinha que ter pedido pra ela me ligar. - Mas se ela te ligar, digo, se ela te ligasse, você a levaria? - Também não. Inventaria uma desculpa.
Diante de minha rispidez, mainha sempre apela para o emocional.
- Meu filho, tadinha, ela não tem como ir... - Mainha, eu...Ai! Ai! Ai! - O que foi, meu filho? Que gritos são esses? - Acho que peguei o gancho do telefone de mau jeito! Que cãibra dolorida! Juro que estava me acostumando com a idéia do coral, mainha, mas agora, acho que não poderei dirigir... - ...
Vejam bem, não sou um escroto. Só não gosto de pedidos ou favores, interesseiríssimos na sexta à noite, como neste último caso. Além do quê, como já escrevi em outra crônica, mainha é campeã em pedidos, mesmo que seja para os outros. Sem falar ainda que, sexta à noite é sagrada para mim. É um momento de refletir a que horas da tarde vou acordar no sábado, momento exclusivo de curtir minha Carol, noite de relaxar para poder fazer muita travessura com meu Caio no sábado, enfim. Sexta à noite, não rola.
Mas isto foi a perspectiva traste da coisa. É óbvio que também existe um lado bom. Inclusive se falarmos dos pedidos puramente interesseiros daqueles casais que de vez em quando se falam e por isso, não têm intimidade suficiente para dizer abertamente que estão querendo apenas uma coisa.
- Olá, tudo bem? - (Êita, a Martinha me ligando à meia-noite e quarenta e sete...Aí tem coisa.) Olá, Martinha! Como você tá? - Sabe o que é Maurício, meus pais viajaram e eu morro de medo de ficar aqui em casa sozinha. (Ai, acho que exagerei na dose.). - (Bom, vou usar logo a isca mais batida pra ver o que ela realmente quer. Não tô muito afim de romance hoje, não.) Tranqüilo, Martinha. Você deve ser daquelas que “naqueles dias” fica mais sensível, inclusive, mais medrosa, né. Faz assim, eu passo aí, a gente conversa um pouco pra ver se você se acalma... - Não, Maurício, não estou “naqueles dias”. Sou medrosa mesmo. Mas, só ficar um pouco não adianta. Já pensou se quando você for embora um bandido aparecer? (Meu Deus, agora pareci uma periguete! Ah, foda-se!). - (Hehehe. Foi sutilmente fisgada!) É verdade, né, Martinha, vai que o porteiro do seu condomínio, o seu Onório, é um ladrão disfarçado! Vou pegar uma muda roupas e ir aí agora! - (Ai, que maravilha!) Mas vem logo antes que alguém apareça. Acabei de ver um vulto aqui!
Logo ele, o seu Onório, setenta e três anos, de andar vagaroso, com um quarto da visão em cada olho e que já colocou pontes de safena. Se tentasse assaltar a casa de Martinha, o garotão, forte e sarado, Maurício, estaria lá. E então, estaria consumado o pedido interesseiro de Martinha. Afinal, defender-se principalmente do seu Onório, que poderia ser um mau-elemento foi o que fez com que ela ligasse naquele horário para Maurício, não é mesmo. Se bem que, se ele visse, apenas com seu quarto restante de visão o que a tal Martinha usava, ou melhor, que não usava, enfartaria sem cometer delitos.
Bom, mas eu falava dos interesseiros consangüíneos. Já sou impressionado com este tipo, e fiquei mais ainda depois que descobri uma estirpe pior do que o parente distante que solicita favores. Outro dia o Caio, meu filhote de dois aninhos me ligou. Quer dizer, sua avó materna me ligou porque ele pediu. Lá estava eu, feliz da vida ao telefone, perguntando como foi o dia dele, como foi na escola, o que estava fazendo, mas o baixotinho nada respondia. Eu falava, falava, falava e nada. Até que ele rompeu o barulho da linha telefônica:
- Paaaaaaaai! - Oi, meu filho? - Compô totolate? - Comprei, amor! Um chocolate bem grandão pro neném! - Tchaaaaaaaau! -....
E sabe do pior? É que amo quando ele é tratante comigo.