27.05.07
Continuação do Confessionário
Já virei Dreher e Presidente no gargalo, já viajei pela segunda vez sozinho para Caldas Novas, já fui para a pipoca da Baratona com cinco reais no bolso e me diverti como nunca, já ri demais com as filosofias, histórias e causos do Israel, já levei porrada em comemoração de Copa do Mundo, já vi o Brasil perder a final dessa Copa do Mundo, já fui virgem aos dezessete, já competi quem beijava mais garotas numa balada, já azarei mulheres muito lindas e também mulheres muito desfavorecidas esteticamente, já bebi no Sossega Madalena e sai sem pagar, já pintei o cabelo de loiro, já fui vocalista de banda de pagode no intervalo das aulas, já reprovei o terceiro ano e já tive duas namoradas ao mesmo tempo. Já fui ao samba de quinta a domingo, já economizei o troco do pão de toda a semana para ir ao samba no domingo, já tive mais CD’s de samba e pagode que todo meu acervo, já traí a confiança de um amigo por azarar a namorada dele, que me deu mole, e o pior: não peguei a garota e por isso, já levei isso pro meu caixão todos os dias quando dormia, já tive o perdão dele, já perdi a virgindade aos dezoito. Já tive uma primeira namorada de verdade, cujo não mereci sua dedicação, já acabei namoro por telefone, já encontrei uma atração fatal que me ensinou tudo de cama, já deixei de ir à formatura de painho para ir à Micarê, coisa que ainda não me perdoei, já trabalhei vendendo cartela do Bingão para ir ao Salute Salvador com o Chiclete, já vendi consórcio, já vendi curso de inglês, já trabalhei em corretora de seguros, já trabalhei e muito com telemarketing e já viajei no carnaval e joguei um emprego para o alto por conta disso. Já passei no vestibular sem saber como, já comi dezesste fatias de pizza no Primo Piato, já vi amigos se perderem na droga começando com um simples baseado, mas já vi os mesmo amigos renascerem dela.
Já fui ao Maracanã na final do Mundial da Fifa com o Gonzo, Léo e seu Mirão, para ver a decisão entre Vascão e Corinhthians, já tive pesadelos com o pênalti cobrado para fora pelo Edmundo. Já compus vários sambas com o Geléia, já fiz músicas para muitas paixões que passaram em minha vida, já fiquei desempregado por um bom tempo, já levei uma volta de uma japonesa da faculdade, já me dediquei ao curso, já me formei em Publicidade e Propaganda, já fiz estágio em duas putas agências, e com isso aprendi realmente que as melhores escolas são pagas, já fui redator de agência pequena, já fui demitido sem mais nem menos. Já perdi emprego para preparar portfólio, já apresentei o mesmo em meia cidade, já passei muitas, muita e muitas tardes e madrugadas desempregadas a fio criando anúncios fantasmas. Já traí e fui traído, já arranjei um grande amor, já fiz de tudo por esse amor, já fizemos as coisas mais picantes, já passei por baixarias, já levei tapa na cara, já briguei com a sogra, e feio, já viajei com namorada no carnaval para Caldas Novas e Graças a Deus, já me libertei daquele amor bandido.
Já passei dois anos solteiro, já tive um e-mail chamado fernandofarra, já realizei o maior fetiche sexual masculino e acreditem rapazes, é bom demais! Já fiquei com uma namoradinha de manhã, uma outra à tarde e outra diferente à noite, já encontrei mulheres que não valiam nada, e já encontrei outras muito valiosas nesse período, como Isabela, Jaqueline e Fabíola, que por acaso, é mãe do meu filho, pois já sou pai. Já arranjei um bom emprego graças a um grande amigo de codinome Rei, já usei o mesmo terno para trabalhar, todos os dias, durante três meses. Já viajei para a micareta mais inesquecível de todas, o Carnagoiânia de 2004, já fiz uma bandeira do Chiclete com Banana, cujo sou tiete, essa mesma bandeira já esteve no site oficial, Bell já pegou nessa bandeira três vezes e já tive, inacreditavelmente, meu nome ressoado pelo Barbudo. Já encontrei um grande, um super amor, que eu pensava ser para sempre, já tatuei seu nome no braço e hoje me arrependo disso por sofrer uma grandíssima decepção com esse amor. Já capotei meu lindo Gol bola em um acidente que não fui culpado e que de fato, quase me matou. Já fiquei internado quinze dias, já fraturei a bacia em oito, também já fraturei duas costelas, já fiz transfusão de sangue, já fiquei três meses de atestado, já perdi dez quilos, já fiz fisioterapia e hidroterapia, já tive gases, muitos gases e já ganhei uma cicatriz por conta da cirurgia que me salvou. Cicatriz na qual tenho vergonha, mas que estou começando a me habituar. Já voltei a praticar esportes, voltei a jogar bola, mas há muito tempo não sou mais goleiro e também já parei de jogar bola. Já tive um Palio lindo e já tive que me desfazer do mesmo por culpa de dívidas infinitas. Já me separei desse super amor, já tentei voltar a ser putão, sem sucesso. Já li bons livros, já escrevo muito mais que antes, já sinto falta de não ter prestado atenção às aulas de literatura, geografia, história e português no segundo grau, mas já corro atrás de aprender o mais rápido possível. Já chorei de desepero quando soube que seria pai, e depois já olhei sem cair a ficha quando ele nasceu. Já compreendo melhor as coisas que meu filho pede e faz, e também já compreendo melhor os meus pais, já sinto saudades daquele baixote o tempo todo, já vi o Brasil ser eliminado da Copa com meu filho (tão pequeno e tão pé-frio), já descobri que o melhor som do mundo é da voz dele falando papai e já descobri que isso sim, é amor incondicional.
Em tempo: já vi o Vascão mais uma vez ser vice para o framengo e já vi ir abaixo o meu sonho do bicampeonato da Libertadores da América.
Pronto. Resumidamente, bem resumido mesmo, estão aí as boas emoções que tive nos meus vinte e sete anos de idade. E olhando assim, percebo agora que de tudo que já passei, de todas as emoções e sentimentos, só não fui uma coisa: vazio. Não fui. Pretérito.