27.08.07
Continuação de Torcedores
Enquanto a torcida no Maracanã se refestelava, ecoava a voz do locutor no velho e empoeirado radinho à pilha, em um canto distante e escondido da cidade.
- ...E os jogadores vão para o vestiário! A animação é total! São apenas quarenta e cinco minutos separando o Mengão da primeira divisão no ano que vem! – Dizia aos berros o locutor.
- É noix, cumpadi! Esse Nilsão é muito bom! A FOREVIS FRA alcançou o objetivo!
Acontece que, no intervalo da partida, em uma operação jamais vista pela Divisão Anti-Seqüestro da Polícia Civil do Rio de Janeiro, desmontaram a quadrilha e estouraram o cativeiro da mãe de Carlão, libertando-a. Enquanto isso, Carlão, de uniforme e agoniado, escutava o jogo também em um radinho à pilha, recluso em um canto do vestiário quando seu celular tocou. Era a polícia dando a boa notícia de que felizmente sua mãe havia sido resgatada e estava sã e salva. Carlão abraçou o técnico e os colegas, tão logo chegaram ao vestiário. Prontificou-se ao treinador, que, em um acesso de loucura como o de Zagalo que escalara Ronaldo na final da Copa de noventa e oito, também o mandou a campo. Mas no lugar de Dirceu, o outro zagueiro que fez parceria com Nilsão no primeiro tempo.
O segundo tempo recomeçou e com vinte sete minutos de jogo, Carlão já era xingado de filho da puta em coro pela torcida, devido aos tantos passes errados e sustos que dava a todo momento. Mas o pior estava por vir. Aos quarenta e três do segundo tempo, Carlão numa presepada sem fim, subiu pra cabecear uma bola e como não conseguiu alcançar, pois pulava tão alto quanto uma gilete deitada, meteu a mão na bola, cometendo assim um pênalti. Pênalti este, na qual o time adversário, o pior da competição, converteu em gol.
O jogo acabou e o Flamengo foi rebaixado. Os componentes da FOREVIS FRA choravam copiosamente na delegacia, em um cômodo pátio com tevê de vinte e nove polegadas que transmitia o jogo. Foi quando o delegado e Coordenador da Divisão, Décio, apareceu para levá-los ao xadrez, que ficava em outra parte da cidade. No caminho, acompanhando os policiais e bandidos, os repórteres perguntavam que absurdo era aquele de deixar os seqüestradores, membros da FOREVIS FRA assistirem ao jogo, ao que o coordenador, com um sorriso contido que parecia esconder algum prazer, apenas respondia que havia sido uma regalia galgada pelo advogado da FOREVIS FRA, e que ele não podia se opor à lei. “E quanto a eficiência, o êxito conseguido na Operação Segundona, Delegado Décio? Foi alguma dica ou informação anônima que os ajudaram a solucionar o caso no mesmo dia do seqüestro?”, perguntou outro repórter. Décio então, explicou fatos relevantes do seqüestro e alegou ainda que a rápida e esplêndida resolução do caso foi toda por mérito de sua equipe que se empenhou como em todos os casos. Décio pôs os maus elementos no camburão, entrou no carro e os levou para penitenciária mais próxima. E ninguém, jamais soube que a Operação Segundona só teve tal êxito, porque, naquela divisão da polícia, só trabalhavam vascaínos...