COLUNA FANTASMA

Contos, crônicas e outros devaneios.

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Terra Blog

27.05.07

CONFESSIONÁRIO OU AUTO ANÁLISE II

Já fui um babão de tão apegado ao meu irmão assim que ele nasceu. Já fui um bom empinador de pipa, e acreditem, já fui sim, um bom driblador no futebol. Já tive alergia a gatos e já fui um exímio nadador de piscina de quintal, até meu papai pular dentro da água e me tirar desacordado para fazer respiração boca-a-boca. Já me queimei no cano de descarga da moto do papai, já andei de bicicleta com a mamãe e já usei pijama para dormir.

Já fui colecionador de álbum de figurinhas dos Menudos que davam prêmios, embora nunca tenha ganhado um sequer. Já fui medroso a ponto de acordar papai para falar do barulho da porta, que batia com o vento e por conta disso, já escondi faca debaixo do travesseiro para nenhum fantasma me pegar. Já fui peralta e rasguei a parte anterior da coxa pulando dos degraus da escada por cima de uma tampa metálica da caixa de fiação telefônica, o que não rendeu dez pontos na perna, já que mamãe e papai estavam trabalhando. Já joguei muito Atari e brinquei muito de espingardinha de madeira que atirava feijões, azucrinando tudo que era passarinho e coleguinha perto de casa.

Já amei Balão Mágico e o “Super fantástico” e odiei quando uma loira entrou no lugar. Já aprendi a amar aquela loira e já escutei discos dessa tal de Xuxa pulando e cantando igual doido na cama do meu primo junto com ele.

Já aprendi que o ensino é pior para quem estuda em escola pública, mas pelo menos é um local onde se aprende a ser mais safo para a vida. E lá mesmo, já aprendi a falar palavrão. Já tirei boas notas e não sabia o que era um MS. Já fui ninja de uma gang chamada “Os caveiras” e fiz perseguições a outras gangs com zarabatanas de antena de TV onde as mortes eram causadas por feijões e festejadas com refrigerante. Mas também já fiz perseguições com revólver, sendo policial e bandido. E o que matava dessa vez era a o susto, da espoleta.

Já fumei bituca de cigarro jogada pela janela, já usei brinco para parecer os “New Kids on the Block”, já competi quem imitava melhor o Tim Maia e o Michael Jackson com meu irmão e nuca ganhei, já torci pelo Vascão só para responder para que time eu torcia e já brinquei de médico com a filha de uma amiga da minha mãe na escada do prédio.

Já apanhei de vara de goiabeira do meu pai, já ganhei carrinho de rolimã onde a maior competição era o do joelho mais ralado, já corri atrás de pipa voada e me traumatizei depois que apanhei de um marmanjo só porque cheguei ao local antes e, por direito - de rua, mas direito - a pipa deveria ser minha. Deveria. Já tomei balão numa bola bonita porque quis levá-la embora na hora que a pelada dos pequenos acabou. Já quebrei vidraça de portaria, já brinquei nos pilotis do prédio até minha mãe me buscar pela orelha, já levei cascudo dos mais velhos nas brincadeiras do bloco por ser desaforado e já andei muito de Skate Prolife detonando com todo o piso do condomínio, que por acaso me rendeu muitos gritos do meu pai.

Já deixei minha mãe doida por colocar mais de dez colegas no meu quarto minúsculo para jogar Master Sytem, já fui o melhor jogador de Bete do mundo, já comprei revista de mulher pelada e escondi do meu pai e da minha mãe. Já usei óculos de grau fundo de garrafa e já tive um grande amor na sexta-série quando eu era feio que dói e claro, fui rejeitado porque olhando hoje, não sei como minha mãe me beijava. Já chorei escutando “The time of my life” na gincana do colégio. Já fiz aula de reforço e nunca mais esqueci equação de primeiro grau.

Já tive um amigo de fazer desenhos cujo ganhei apelido de “Sapo Joe”, já inventei uma porção de apelidos para amigos, já tive inúmeras discussões com colegas de sala, já fui rodeado por amigas e já tive uma agenda recheada de mensagens bacanas dessas mesmas amigas. Já não estive nem aí se o Vascão perdia pro framengo (Quem diria), já bati muito bafo com figurinhas à vera, e já aprendi com um cara, que graças a Deus hoje é meu cumpadi, que ser boa gente é do que o mundo mais precisa, tudo isso porque me emprestou o cartucho “Jogos de Verão” do Master System sem nem me conhecer.

Já chorei muito com a separação dos meus pais. Já amaldiçoei a nova mulher do meu pai por ela viajar conosco para Caldas Novas e por isso, já escondi o sapato mais bonito dela no porta-malas do carro, que foi vendido junto com esse sapato que ela nunca achou. Já quis namorar a filha da nova mulher do meu pai e acabei perdendo o ódio da mãe para me aproximar dela.

Já fui nerds, já usei lentes de contato, já tive muita espinha na cara, e já comemorei a primeira vez que ejaculei. Já fui goleiro e frangueiro. Já treinei na Escolinha de Futebol do Morales, no Guará, já fui muito sacaneado por ser levar gol do meio de campo, já chorei por perder um campeonato, já perdi as lentes de contato por culpa desse choro, já tive um grande amigo de estudo e conversas futebolísticas, o Saulo, e já disputei um campeonato sul-americano juvenil em Divinópolis, Minas Gerais. Já aluguei muito filme pornô e também reproduzi para outra fita a maioria. Já gravei todos os jogos de uma Copa que o Brasil ganhou, já vi a mesma Copa comendo Sparkies e tomando Guaraná Antártica. Já fui cinéfilo de ir ao cinema sozinho e assistir a três sessões no mesmo dia e já usei carteira estudantil de amigo para pagar meia. Já joguei muito Super Nintendo, já perdi tardes inteiras com Street Fighter II na locadora de games, já gastei toda minha mesada com fichas de fliperama quando descobri esse jogo maldito em Cabo Frio, Rio de Janeiro. Já madruguei para zerar jogos e já fiquei sem tomar banho três dias em frente ao videogame.

Já fui roqueiro de ir de camisa preta aos shows dos Raimundos, já passei madrugadas a fio jogando Truco, Pôquer e escutando Iron Maiden, Pink Floyd, Legião Urbana e Dire Straits. Já nadei no mar de gente de um show e quase morri por levar uma queda de cima do pessoal. Já joguei muito basquete com o pessoal da quadra, já conquistei medalhas em jogos marcados contra os times do meu primo e já fui técnico de time uma vez na minha vida, mas ainda volto a ser novamente.

Já voltei a ter o apelido de Sapão, já fui adolescente rebelde e já fumei por auto-afirmação. Já malhei na pracinha e já tomei anabolizantes. Já quis fazer Jiu-Jitsu, já usei as calças lá embaixo e já quis brigar só pelo esporte de apanhar, pois não sei brigar. Já viajei sozinho (o que quer dizer sem os pais) pela primeira vez quando passei um reveillon em Caldas Novas, Goiás, que por acaso foi em 96, e a última vez que saí de Brasília no Reveillon, já tive o maior porre da minha vida nessa época. Já roubei e muito cigarro da minha mãe, já levei tapa dela na cara, já fiquei sem falar com meu pai e já presenciei briga judicial dos meus pais. Já quis fumar um baseado (acredite, é verdade: nunca fumei maconha), mas já curti muito a Luana Piovani. Já vi o Vascão ser Campeão Brasilerio duas vezes, também já fui campeão da Libertadores e da Taça Rio-São Paulo, mas também já fui vice para um Real Madrid que jogava tanta bola quanto o Brasiliense. Já beijei pela primeira vez depois de adolescente numa micareta, já escutei muita música baiana (e ainda escuto), já fui à Micarê, já paguei abadá com mesada parcelada em seis vezes e já arrastei amigos para irem comigo, já levei porrada em entrada de show, já levei patolada de um cumpadi, que me fez sentar em tina com água quente e usar um pequeno suspensório para que meu saco parasse de doer, já fui pego nessa situação pela recenseadora do IBGE e depois, por acaso do destino já beijei a tal pesquisadora.
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