27.05.07
CINISMO
Não adianta, faça o que eu fizer, ele vai contra tudo o que eu disse ou quero que faça. Chega a dar agonia. E ainda me olha com ar de doido do tipo “Não tô nem entendendo o que você tá falando”, mas sei que isso é uma máscara que cai pouco tempo depois com uma cara de “Não to nem aí pro que você tá falando”. E ainda me olha com aquele sorriso que dá vontade de matar. De beijos.
“Caio, sai daí agora!”, “Caio, fica aqui!”, Caio, pára com isso!”, “Caio, volta aqui!”, Caio, desce daí!”. Enfim, não adianta. A cabeça do pestinha deve entender tudo às avessas e coloca um não antes de todo verbo das minhas advertências. Como é teimoso, caramba! Dizem que puxou o pai, mas eu afirmo que não! Não sou teimoso! Não adianta! Não sou teimoso!Não sou! Não sou! Não sou!
Mas eu dizia que o Caio tem uma arma letal para desarmar qualquer cara feia de lição paterna: o sorriso. Sempre que o anjinho apronta uma arte, é automática a cara de safado. Como pode ser tão pequenino e saber que abrir a boca e mostrar os dentes daquele jeito nos desmorona? Que moleque foda. Eu tenho certeza que ele pensa “Vou rasgar o encarte do CD, sim! Depois eu dou um sorrisinho, umas beijocas e papai fica bem.” Querem um exemplo? Semanas atrás o Caio estava quietinho no canto dele, sentado de cócoras. Fui lhe dar um beijo e ele não quis, tava agoniado. Ok, ok, não quer beijo? Então beleza. Continuo aqui assistindo o Campeonato Escocês. Olhei para ele novamente e franzi a testa, torcendo para que não fosse aquilo. Caio quando não gosta de ser interrompido, sentado sobre os calcanhares como ele estava, e fazendo grunhidos como aqueles de quem faz força, fatalmente e infelizmente só pode ser uma coisa.
Se eu não estou muito enganado, certa vez em um programa do Luciano Huck, quando Angélica estava grávida, o narigudo fez uma pequena competição sobre qual era, dos atores convidados, o mais pai de todos. Acho que foi o Marcelo Anthony ou Mário Frias, enfim, um deles respondeu, em umas perguntas, que não tinha problema, que gostava de trocar cocô do filho. Ok, realmente não tem problema, já gostar, impossível. Mentira deslavada. Trocar cocô, desculpem o trocadilho infame, é uma merda. Quando ele falou isso, tenho certeza, foi pura invenção. Não tem como gostar daquele odor, daquela cor ou daquela textura. Mesmo sendo do seu filho. Suportar, sim. Gostar, jamais.
Voltando ao assunto, o Caio fez cocô. E lá vou eu, limpar a bundinha do moleque. No banheiro, fizemos o habitual: ele apoiou as mãozinhas na tampa da privada, cantando. Tirei sua roupa e por fim, a temível e argh, fralda. E estava daquele jeito que parecia arte abstrata de pintor desconhecido. Tirei a fralda e é triste, deprimente, olhar para a bunda de uma criança e ver que é como se a gente não tivesse tirado a fralda. Quanta meleca...Foi aí que veio o derradeiro. Não tinha saco de lixo na lixeira e eu, indeciso como sou, fiquei na dúvida entre deixar a fralda cagada no chão e dar um banho nele ou buscar um saco de lixo para jogar aquela porcariazinha fora logo, antes mesmo de lavar a bundinha do meu filho. E, é claro, optei pela opção mais imbecil, a segunda. Imbecil, mas sensata. O cheiro estava muito ruim, e aquela fralda exposta daquela forma, somada a minha dispersão, que não é pouca, poderia acabar resultando em um chão cheio de pegadas mal cheirosas.
Foi aí que busquei pela compreensão dele. “Papai, olha só, eu vou ali na cozinha um instantinho pegar um saco de lixo para jogar o cocô do nenêm fora. Você espera aqui, tá? Tá me ouvindo? Me espera aqui. Eu vou rapidinho”. E ele até que enfim, parece ter assimilado o que eu disse, com um rostinho sereno antes nuca visto. Soltei o bracinho dele, evitei olhar para aquele bundão sujo e fui correndo na cozinha. Em minha casa, não devem ter três metros de corredor que separam o banheiro da cozinha e, mesmo assim, mal cheguei à pia e já ouvi os gritinhos desconexos e uma meia cabeça passar correndo pelo corredor em direção à sala. Que desespero. Vi-me gritando com voz distorcida, cena em câmera lenta e trilha sonora de suspense: “Caaaaaaaaa – iiiiiiiiiiiiiiiiiiiii – ooooooooooooooo!”, seguido de “Puuuuuuuuta - queeeeeeeee – paaaaaaariiiiiiiiiiiiu”. Pronto, lá estava ele, pelado, sentado no sofá da sala, que era branco e agora estava rajado de marrom, muito rajado. Eu estava atônito. E puto da vida. O Caio percebeu isso, e também percebeu que fez lambança. Cínico, safado, danado, gostoso! Ô moleque do sorriso lindo.