27.05.07
AMIGOS ATÉ QUE A FOLGA OS SEPAREM
Você não conheceu e nem conhecerá alguém tão espaçoso quanto o Átila. Átila tem vinte e três anos e é daqueles que belisca a bunda da namorada na frente do sogro. É o tipo de pessoa capaz de te pedir dinheiro emprestado, não pagar e ainda ter a audácia de ligar querendo outro empréstimo. E o dobro do primeiro, diga-se, que é para te pagar o que já devia.
Átila sempre foi assim, só pensava no hoje, e o amanhã que se explodisse. Era folgado, espaçoso, mas “vagabundo, não!”, retrucava ele. Uma vez deixou a sobrinha chorando por ter tomado seu pirulito. Quando colocou na boca e viu que era do sabor uva, que ele odiava, cuspiu o doce no chão. Teve aquela outra vez também que ganhou de um amigo o ingresso de um show, pediu carona para não gastar a própria gasolina e ainda bicou da cerveja do amigo a noite inteira, com a desculpa costurada – segundo ele, desculpas esfarrapadas são aquelas muito usadas. Já as desculpas costuradas, são as muito usadas e reformuladas – de que o cartão de saque do banco quebrou e, por isso, não conseguia sacar no caixa eletrônico. Mas o óbvio é que ele sempre andava com um cartão quebrado do banco para dar o golpe. Átila era tão “se me dão”, que até quando comprava o próprio cigarro, o que era raríssimo de ocorrer, dava a carteira a Alex, primo de sua namorada, só para poder “serrar” do cigarro alheio. “Numa boa Alex, se o cigarro for meu, não vai ter o mesmo gosto. É melhor eu nem fumar!” E se acabava de rir com o que falava.
Enfim, eu poderia passar laudas aqui contando o quanto Átila era escroto com sua ocupação demasiada de espaço. Teve um amigo dele, o Julião, que achou que estava na hora de Átila aprender uma lição. O cara torrava a grana toda com farra, mulher e bebida, até aí, nada contra isso, mas não deixava um real sequer para almoçar, e claro, passava o restante do mês na aba do amigo.
Bom, Julião bem que tentou dar-lhe uma lição. No primeiro dia que Átila foi lhe pedir dinheiro para o almoço, ele foi curto e grosso: “Não, Átila. Se isso continuar, você não vai crescer. Além do que, não tenho cara de ser seu pai. Mesmo apesar de querer muito comer sua mãe!”. E gargalharam, ambos, Julião e Celsinho, outro colega de Átila. Passaram um dia, dois e no terceiro, Julião, um negão desses com dois metros de altura, por dois de largura, metido a machão, mas que tem o coração bem maior que o superlativo de seu nome, cedeu a pressão. Após chegar mais cedo do almoço no dia anterior e surpreender o amigo vasculhando gavetas no escritório que contivessem algum sanduichinho, bala ou biscoito para matar sua fome, Julião não conseguiu dar continuidade ao plano. No dia seguinte ligou para ele do restaurante ali próximo aonde almoçavam e o convidou para almoçar e pagar sua conta. Átila, então, aproveitou para exercer seus talentos de artista.
- Vem Átila, vai ficar aí passando fome?
- Não. Não vou, pois mereço isso. Eu colho o que planto. E não adianta insistir que não irei de forma alguma. O Botafogo pode ser campeão brasileiro que não vou de jeito nenhum! - disse ele com a voz chateada, mas assertiva.
- Vem logo rapaz...
- Tô descendo.
Na saída do restaurante ele encontrou Julião, que lhe deu o dinheiro e disse olhando nos olhos que queria o troco, que não se tratava do valor, mas da confiança que estava depositando em um amigo. Átila agradeceu e pegou o dinheiro. Comeu com vontade, pois haviam três dias que ele não fazia aquilo, almoçar.
De volta à empresa, Átila gritava “Foi brincadeira, porra! Foi brincadeira!”, e se escondia de Julião, cujo celular tocava sem parar, e espumando de raiva praguejava e tentava acertar o ex-amigo com moedas. Aliás, Julião até agüentou por muito tempo a “amizade” do bicão, pois este não tinha mais amigos que pudesse contar, somente colegas de oi e como vai. E mesmo assim, fez mais uma de suas presepadas, que deram a conta certa do último amigo que ainda lhe restava, Julião.
Enquanto as pessoas colocavam as cabeças para fora de suas baias para ver o que tinha acontecido, as informações desencontradas foram se encaixando. Julião estava puto da vida porque, Átila, além de ir almoçar em um restaurante mais caro, folgado como era, comeu uma das sobremesas mais sofisticadas e, não satisfeito, ainda fez uma brincadeirinha com Julião. Pediu ao caixa, um gay que adorava dar moedas, que o troco de dezessete reais fosse todo em moedas, as de menor valor possível. E junto com o dinheiro que pagou a conta, colocou um bilhete dizendo: “Te achei lindo! Me liga pra gente sair hoje? 8165.7823, Julião”.