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Contos, crônicas e outros devaneios.

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Terra Blog

06.11.07

A PIOR ESTIRPE

categorias: Crônicas
Quando eu acho que já vi todo tipo de homem imbecil, me esqueço que ainda existe um espécime nada raro: o romântico canalha. Eu o chamo assim, porque, antes de um excelente calhorda, ele é um ótimo ator, pois interpreta o homem ideal que muita mulher sonha ou o príncipe encantado que algumas ainda acham que existe.

O romântico canalha em essência verdadeira é um machista que não manda flores, não puxa a cadeira, não se oferece para pagar a conta, não é honesto com os sentimentos alheios, enfim, não é cavalheiro. Todavia, contudo, entretanto, faz uso destes artifícios quando só quer uma coisa delas. Aliás, duas: comer e vazar. Mas antes disso, com seu jeito artisticamente atencioso, ele irá jurar que morre de amor e de saudades, vai conhecer os familiares e amigos, e se ainda assim, ele não conseguir o que quer, irá namorar a vítima, se assim podemos chamar. E quando o sexo enjoar, o que varia entre uma a três transas, ele some. Acaba o amor, finda a paixão.

Eu sempre gostei do filme Don Juan De Marco, de Francis Ford Coppola. Apesar do teor do filme ser um tanto machista, eu achava fantástico aquilo do Don Juan – vivido categoricamente pelo Johnny Depp – tratar a mulher como a coisa mais essencial e perfeita do mundo. A sinceridade do amor que dizia sentir era tanta que me perguntava às vezes se ele realmente não se apaixonava sempre por uma mulher diferente.

O romântico canalha se parece em algumas coisas com o personagem do filme, já que o preto no branco, são ambos falando do que não sentem verdadeiramente para levar uma mulher para cama. A discrepância é que, no filme, Don Juan roubava os corações, ele desfrutava aquele momento quando a mulher estava em seus braços como se fosse a única, a primeira e a última na qual ele até se mataria pelo amor sentido. Todas as mulheres, no fundo, no fundo, sabiam que, pelo menos naquele momento que estiveram com ele, elas foram únicas. Já o patife descrito, quer apenas destruir o coração, dizimar a alma. Ele jamais vai querer o amor de mulher alguma para si, simplesmente porque o romântico canalha é ligado ao superficial e material. Espalhar em alto e bom som e com orgulho a sacanagem feita com alguma mulher é divino a ele, pois precisa constantemente de se auto-afirmar. Ou seja, não é homem, porque homem que é homem, mesmo que sacaneie alguma mulher, não tira sarro, sente remorso. O que não deixa de ser também algo bem demagogo.

Não quero ser advogado de “tolinhas” que são iludidas, o que falo é apenas da existência de sujeitos que nos dias de hoje, podem conseguir sexo facilmente em qualquer balada ou com quaisquer cento e cinqüenta reais, mas ao invés disto, insistem em flautear uma gatinha, que, muito provavelmente após um trauma desses pode virar uma cachorrona.

Acho que fiz esta vasta introdução, para descrever minha indignação com minha raça por conta de um caso que fiquei sabendo tempos desses. Um romântico canalha, ou melhor, um filho da puta mesmo, se aproveitou da inocência e ingenuidade de uma garota de dezessete anos para seduzi-la. Ela se guardava para alguém especial, e achando ter encontrado este alguém, acreditou na história de cinema que o vigarista produziu, dirigiu e atuou. E para completar, arrematou a virgindade dela como Oscar de sua interpretação. O cara tinha quase trinta anos, transou com ela uma vez e desapareceu. E quer saber o pior? É que em conversas de boteco ainda escutei homens endossando a atitude com frases tais quais “Tá vendo? Um filho da puta mais cedo ou mais tarde iria foder com a vida dessa menina e fazer igual ele fez! Então, já que isto vai acontecer de todo jeito, que sejamos nós estes filhos da puta!”, e soltava uma gargalhada. Eu sei, eu sei, frase nojenta, apesar da sutileza cômica. Só que, é legal contar isto quando é com os outros, não é? Será que para a filha ou irmã, seria usado o mesmo discurso?

O problema é que imbecis assim, só existem justamente porque têm outros animais que aprovam tais condutas. Caralho, não canso de pensar qual a graça que um homem vê em tirar a virgindade de uma garota. Na minha opinião, tem que ser muito homem para desvirginar uma mulher. É coisa para quando tem sentimento envolvido de ambas as partes. Ou então, se a garota não se importar e está louca para se livrar do cabaço, perdoando a palavra tosca. Honestamente, fora essas ocasiões, qual a graça? Vai ser doloroso para ela, fatalmente você não vai fazer nem um terço do que faz com uma mulher experiente, vai brincar de cabra-cega (“Não, aí, não!”, “Mais pra lá!”, “Aqui, aqui, aqui!”) e se ela já gostava de você, irá armar um acampamento na porta de sua casa. Enfim, realmente não sei qual a graça. Sei que as virgens de hoje estão bem mais espertinhas, afinal as revistas, amigas e a liberação sexual contemporânea (putz, falei bonito agora!) as deixaram bem informadinhas. Mas mesmo assim, ainda duvido que alguma delas saiba fazer o sabonetinho ou conheça a técnica ninja do Halls preto.

A conseqüência de atitudes patifes como essas dos românticos canalhas, desencadeiam comportamentos femininos cada vez mais rebeldes, como já expliquei em Pé-de-Pano, além de deixar no ar as velhas frases que acirram sempre mais a guerra dos sexos, como “Homem não presta!”, “Homem é tudo igual!” etc etc. E por conta disso, algumas laranjas maduras levam má fama por conta das podres. Então, sugiro algo: se você for homem e discordar de atitudes trogloditas iguais as desses caras que enganam, comem e vazam, quando ouvir algum outro homem contar uma história dessas, não precisa discutir, apenas não sorria, continue sério, já que não é piada e não tem a mínima graça.

Agora, se você for mulher, por favor, faça um bem à humanidade: convide o carinha para sair. Daí, depois que vocês já estiverem altinhos, após o sétimo copo, quando estiver prestes a rolar um beijo, dê uma baita joelhada no sujeito, daquelas de aleijar mesmo. Depois você fala que foi a bebedeira. Se estou certo sobre a precisão, indignação e força feminina, este romântico canalha nunca mais poderá transar com ninguém. Pronto. Menos um imbecil no mundo.
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