COLUNA FANTASMA

Contos, crônicas e outros devaneios.

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Terra Blog

18.10.07

TIO PATINHAS OU O SEM NOÇÃO IV

categorias: Contos
Do bangalô em que se hospedavam no litoral nordestino, a brisa que batia na varanda era extremamente convidativa para uma caminhada na praia. Sobretudo quando se está toda serelepe e o namorado dorme o sono e o ronco dos hipopótamos.

Definitivamente, aquela cena dantesca era de dar asco. Catou a saída-de-praia, chapéu, óculos escuros e pôs-se a caminhar. Contemplava os coqueiros, a areia branca, e o sol de rachar às quatorze horas e trinta e sete minutos. Saíra de casa sem beber água e já se sentia completamente desidratada embaixo daqueles quarenta graus na sombra que faziam na cidade, conforme previsão do tempo do jornal de meio-dia. “Também, isto é hora de caminhar na praia? Não fosse meu namorado preguiçoso e espalhado na cama, estaria fazendo amor uma hora dessas. Talvez até dentro da banheira ou debaixo da ducha gelada. Humpf, homens!”. Ela se recompôs de seus pensamentos libidinosos e avistou o que parecia ser um sonho: o carrinho de picolé.

Chupando picolé de mangaba ela já não sentia mais sede. Porém, caminhou por mais dez minutos e desistiu de ir até a outra ponta daquela praia. Ela nunca fora dada aos exercícios físicos, a não ser aqueles que se pratica sem roupa, e caminhar quatrocentos metros para ela foi a gota d’água.

Assim que ela chegou em casa, viu o namorado acordado e sentado à beira da cama. Mal ela chegou e ele já foi dizendo:

- Nos assaltaram!

E ela perplexa:

- Como assim, meu Deus? - E correndo para checar a bolsa, continuou.
- Mas como foi? Entraram no quarto, lavaram a máquina digital, sua carteira, diz logo, ô infeliz!
- Antes de dormir o dinheiro estava todo dentro da nossa caixinha. Mas quando acordei, fui checá-la por acaso...E descobri que nos roubaram dois reais! Dá pra acreditar?

Ela, estarrecida, soltou um leve sorriso de canto de rosto, como se esperasse o namorado falar “Brincadeirinha, amor!”, mas ele continuou sério. Diante disto, ela o olhou com desprezo (daquele jeito bem feminino, cujo se baixam os olhos e as sobrancelhas) enquanto seu namorado ainda resmungava a falta dos dois reais. A feição dela mudou, assim como o restante da viagem, que não foi mais a mesma coisa. Até porque, depois daquilo, o rapaz dava mais atenção à caixinha do que a ela.

Voltando da viagem, já no aeroporto, após pegarem as bagagens...

- Ah, toma. – Disse ela.
- O que é isto? – Ele indagou, olhando a moeda de cinqüenta centavos que a namorada acabara de lhe colocar na mão. E ela, muito irônica, disse:
- Acredita que encontrei na praia o ladrão que nos assaltou? Eu o agarrei pelo pescoço e fiz devolver o que restava do dinheiro que ele levou da gente!
- Jura, amor? E por que você não me disse? Como você sabia? Quem era o ladrão?
- O ladrão era um picolezeiro. Que por sinal, vendia um excelente picolé de mangaba!

Virou-se e foi embora. Após alguns passos distantes do namorado, no saguão do aeroporto...

- Júlia!

Ela se virou, mais serena, disposta a conversar. E ele:

- Não falei que tinham assaltado a gente?!

09.10.07

WORKAHOLIC

categorias: Contos

Tudo é meia-luz e a música é ouvida em alto e bom som. A decoração do local é perfeita nos seus mínimos detalhes, desde o palco bem ornamentado e iluminado que lembra os da Broadway, ao bom gosto dos móveis do local, sejam mesas, cadeiras ou sofás. Os novos freqüentadores ao entrarem ali têm a consciência de que se trata de lugar de nível.

No centro das mesas, os mais caros tipos de whisky são os donos da situação, além de comandar a gritaria nos momentos oportunos. Ali, a tensão e o estresse do cotidiano cedem espaço para as mais curiosas histórias e os mais diferentes tipos de pessoas. Gente importante e engravatada do setor público e privado circula pelo local, assim como belíssimas mulheres maquiadas e provocantemente bem vestidas. Em underwear.

O primeiro show vai começar, os tons de azul da iluminação do clube, mesclado às sombras ficam mais densos. A platéia, noventa por cento masculina, se cala. Uma primeira e belíssima mulher, das pernas bem torneadas, bumbum redondo e acentuado e seios fartos aparece no palco. Alguns surros espalhados pelo clube dizem “É aquela, que foi capa da revista do mês retrasado...”.

Ela se dirige lentamente em direção ao centro do anfiteatro e se agarra a um bastão, uma espécie de pilastra circular metálica, fixada do tablado ao baixo teto do clube. A música barulhenta dá vez a uma canção instrumental, tocada pelo grupo de jazz que está postado em um dos cantos do palco. A luz do clube fica mais turva, e a perfeita iluminação acompanha agora apenas a silhueta da stripper, que começa a dançar sensual e libidinosamente, esfregando-se e deslizando pelo bastão. A mesa de Souza é a primeira em frente ao palco, lugar VIP no clube, mas ele não é um freqüentador assíduo. Na verdade, nem gostava de garotas de programa. Ele foi ao clube com alguns amigos do trabalho que muito insistiram e mesmo assim, só depois que uma reunião que começava às vinte e três e trinta foi cancelada. Tinha grande cargo de chefia na instituição que trabalhava e não era raro sair às duas, três da manhã do trabalho. Sua esposa não gostava, aliás, ela odiava, mas se resignava.

A fogosa stripper sorri para Souza, mas ele, atento, não perde um detalhe da garota. Esta, por sua vez, fica cada vez mais impressionada com ele, tira o sutiã e caminha na direção da mesa e, seminua, deixa cair a linda peça do seu mínimo vestuário no colo de Souza. Os demais gritam, bradam, assobiam e aplaudem. Uma bagunça só. Neste momento, quando Souza está perplexo com a beleza da moça, seu telefone toca. Pelo identificador ele nota que é sua esposa. Antes de atender, ele puxa Carlinhos pela gravata e diz “Eu falei que ia dar merda!”. “Não atende, ô Souza, deixa de ser bundão!”. Ele atende um pouco distante da área vip, mas ainda em meio ao barulho e sua esposa começa o interrogatório.

- Já perguntei, e vou perguntar pela última vez, Souza! Ande você está? Você disse que viria pra casa!

E ele, tentando se esquivar de uma ruiva que senta no seu colo no exato momento, responde como se suplicasse:

- Ok, Lídia, ok amor. Desisto. Eu tô numa casa de stripper, e uma delas está sentada no meu colo. Fui carregado pra cá depois de uma reunião, mas é apenas para desestressar! Eu juro que não fiz nada demais! Você sabe que eu te amo!

Barulho da linha telefônica.

- Souza, você é um grande filho duma puta mesmo! Quando você vai parar com isso? Seu cachorro! Já falei que este seu jeito vai acabar com nosso casamento!
- Mas amor...
- Não quero papo, Souza! Humpf! E ainda me vem com essa desculpa esfarrapada de que está num puteiro! Antes tivesse! Pode ir logo dizendo que reunião é esta que você está!

 

 

 

Obs.: baseado em uma zombaria do colega de trabalho, Alan, sobre meu chefe que é tarado. Por trabalho.

21.09.07

PÉ DE PANO

categorias: Crônicas
Por conta de alguns traços de machismo que ainda carrego – apenas os dez por cento necessários para que um homem não aceite um fio-terra – nunca fiquei surpreso em saber que algum homem traiu sua parceira, seja ele casado ou não. E o que me faz pensar isto é a mesma lógica das minhas reações de assustado por uma amiga me dizer que ficou com dez caras numa micareta, e sorridente por um amigo que ficou com dez garotas na mesma folia. Mas entendam, não discrimino, odeio isto. Só que a reação é diferente, não tem como negar. Eu não demonstro, mas sinto isto por dentro.

Isto é ruim? Ruim, não. É ridículo. Porém, por mais que eu me esforce, não consigo extinguir estes machismos que adquiri sei lá como. Vai ver que incorporei e alimentei isto através da sociedade no geral, de amigos, da minha criação, das inúmeras revistas de mulher pelada que coleciono ou por qualquer outra desculpa banal que você mesmo queira dizer. E por que me sinto tão controverso e/ou incoerente? Por que falamos de relacionamentos entre homem e mulher, e se todos nós temos hormônios e genitálias, porque não teríamos os mesmos tratamentos? As mulheres são muito mais organizadas, responsáveis e inteligentes que os homens (e isto não é lobby pró-feminismo, apenas a verdade), e talvez por isso eu fique encafifado, pois as mulheres estão sendo tão burras quanto nós homens, que trocam tudo por nada, uma família por uma mocréia, uma vida conjunta por uma noite e por aí vai. As mulheres têm que ser muito mais grandiosas que as pequenezas de nós, homens. O problema, óbvio, é a questão da mão-dupla, afinal, por que elas darão a vida em um relacionamento se muito homem não dá? E antes ser burra a ser chifruda sozinha.

É por isso que, se nunca fiquei surpreso com o fato dos homens serem infiéis, também não tenho mais achado tão diferente quando as mulheres o fazem. Como eu disse, direitos iguais. Nenhuma mulher merece se matar pelo relacionamento se o bonitão está lá cagando e andando. E acho que agora cheguei ao ponto ideal para ilustrar o que quero dizer.

Conheci dois caras destes que pensei que nunca mais encontraria na vida. Dois caras boa pinta, com bons empregos, nível intelectual elevado, casados, tem filhos, mas daqueles que se julgam os machões da parada: “Porra, saí no sábado à noite, peguei uma gata!”, disse ele. “Ué, mas você não é casado? Que papo é esse de que saiu no sábado à noite?”, perguntei curioso em meio a risos, ao que ele respondeu: “Rapaz, lá em casa quem manda sou eu!”.

Acreditem, escutei esta ladainha um bom tempo. Nem para os caras usarem umas frases mais legais. Reações como estas são tão arcaicas e clichês, mas tão clichês, que até as frases são batidas: “Lá em casa que manda sou eu!”. Putz...Mal ele se dá conta que, neste exato momento, quem pode mandar na casa dele, mandar na mulher dele, no sentido porco da frase, não é exatamente ele.

Creio que todos sabem que a coisa mais correta a se fazer quando vem algum desejo de querer trair é pular fora, ser franco com seu igual, mas quem pensa assim ou consegue fazer isto é a grande minoria. Logo, aquela sua mulher – aliás, sua não, porque, numa boa, você não deve tratar sua mulher assim – a mulher de um desses caras, de tão destratada, de tão carente, de tão humilhada e ressabiada o que vai fazer? Arranjar um pé-de-pano.

Pé-de-pano é o cara dito profissional. É aquele que foge só de meias quando um desses maridões de neandertal chegam em casa. Ou ainda é aquele que, esperando o machão ir embora de casa, tira os sapatos e sobe as escadas só de meias para não fazer barulho, se escondendo no quarto do filho menor que foi para a aula. E ao contrário do que os cornos pensam, o Ricardão, o outro, o pé-de-pano não é um filho da puta. O filho da puta é o próprio corno. O pé-de-pano é apenas aquilo que a mulher desses caras vem pedindo e querendo deles há muito tempo e os mesmos não o são: um homem.

Não estou levantando bandeira de fidelidade aqui, até porque já fui infiel e cada um faz o que quer da própria vida. O que estou dizendo é que, homem que é homem não destrata a mulher com quem ele está e como senão bastasse ainda sai contando isto como se fosse vantagem. Quando conheço um homem que destrata a própria mulher do jeito que estes dois caras o fazem, já penso: “A mulher desse aí fica com tesão toda vez que o marido sai de casa.”. Caras assim estão errados duas vezes. Primeiro porque não são leais com as pessoas com quem estão. E lealdade é muito diferente de fidelidade. E segundo porque ainda saem contando para Deus e o mundo que destratam as mulheres em casa, que dão uma meia-assistência (“Ah, terça-feira eu dei um trato de leve na patroa e agora ela está mansinha) etc etc etc. Numa boa, se você não trata bem sua mulher, você é um chifrudo em potencial, mas até aí tudo bem, só você sabe. Agora, se é você “quem manda em casa” e ainda conta aos outros, aí meu amigo, todo mundo sabe que você é corno. E o pior: você quem contou.

Li um e-mail destes bem virais certa vez cujo dizia que, mulher insatisfeita é uma máquina colocadora de chifres, o que é a mais pura verdade. Ela pode até se arrepender depois, mas esta é a primeira fase. E se na segunda fase ela gostar? E se houver a décima quarta fod, digo, fase? E se ela teve com o pé-de-pano aquele orgasmo que não sente com o marido, namorado, o que for, há muito tempo? Porque, como nós bem sabemos, as mulheres não traem a esmo como os homens. Se ela traiu, cuidado que pode ser sinal de uma paixão, o que não é um imperativo, afinal, o filme mais repudiado por qualquer homem é Infidelidade, com Richard Gere e Diane Lane. (Não recomendo.). E na boa, se um personagem cavalheiro, amoroso e gentil igual o do filme foi traído, quiçá você, que trata mal sua mulher. E aposto que sua esposa ou namorada não te acha mais atraente que o Richard Gere.

Enfim, ilustrei as duas peças raras aqui porque ainda penso que não existam tantos homens assim, do tipo “Sou foda, como todo mundo, minha mulher boazinha não descobre e nunca fará nada porque é louca por mim!”. Mas se você se identificou com os dois maus exemplos aí, rapaz, faz o seguinte, já vai ficando íntimo do pé-de-pano, pegue o telefone dele. Assim, quando você pensar em chegar mais cedo em casa, dá uma ligadinha antes. Não vai ficar bem para você e nem para ele pegá-lo com a boca na xoxo, quer dizer, na botija. Além do mais, você pode acabar atrapalhando um orgasmo fantástico que sua mulher teria. O que vai deixá-la irritada e insatisfeita. E, como já expliquei, mulher insatisfeita...

12.09.07

O TRATANTE

categorias: Crônicas
De todos os tipos de pessoa, o interesseiro é um dos que mais me impressiona. Fáceis de identificar, estes tipinhos são aqueles que sempre te procuram para pedir algo, sem cerimônia alguma, em vantagem de si e que, obviamente, só pode vir da sua pessoa naquele momento. Pode ser um serviço, um presente, dinheiro etc etc etc. Eu sei, é um tremendo rótulo, mas que o colou não fui eu. E, produto com embalagem ruim, não vende, fica mal falado e todos reconhecem.

De qualquer forma, você, claro, tarimbado e sabendo identificar bem um destes, na hora que vê que ele te procurou, enquanto escuta toda a ladainha de sempre, já pensa: “Será que ela pode pular esta introdução e dizer logo o que quer?”.

Mas os piores interesseiros são os consangüíneos. E o exemplo clássico é o parente que só te vê em festas da família, nas quais você geralmente está contando a hora de ir embora, e ele chega embriagado, com aquele papo de amo você pra cá, somos família pra lá, chora e no meio da semana te liga para, advinha? Pedir empréstimo. É inevitável. Por isso, cuidado com esta categoria de malandro, pois são astutos e tanto as demonstrações bêbadas de afeto, quanto os pedidos de ajuda financeira são feitos, invariavelmente, na presença de mais uma porção de familiares. O que acaba o obrigando a dar o dinheiro – ou você conhece algum parente que paga empréstimo? – àquele seu amado primo-terceiro, da sua prima adotiva, filha daquele tio que você vê raramente, pois ele mora em outro Estado.

Menos pior que esta situação é aquela em que o pedinte usa de subterfúgios para que você não tenha chance de dizer um não bem sonoro. Você vai receber uma ligação inesperada, no meio de uma tarde de sexta-feira, em plenas férias, com sua mãe dizendo:

- Meu filho, sua tia pediu pra eu ver se você poderia levar sua prima, hoje à noite, no ensaio do coral de cânticos religiosos dela...
- Não vou, não, mainha.
- Mas meu filho...
- Ah, mainha, a senhora arranjou a presepada, agora dá um jeito. Tinha que ter pedido pra ela me ligar.
- Mas se ela te ligar, digo, se ela te ligasse, você a levaria?
- Também não. Inventaria uma desculpa.

Diante de minha rispidez, mainha sempre apela para o emocional.

- Meu filho, tadinha, ela não tem como ir...
- Mainha, eu...Ai! Ai! Ai!
- O que foi, meu filho? Que gritos são esses?
- Acho que peguei o gancho do telefone de mau jeito! Que cãibra dolorida! Juro que estava me acostumando com a idéia do coral, mainha, mas agora, acho que não poderei dirigir...
- ...

Vejam bem, não sou um escroto. Só não gosto de pedidos ou favores, interesseiríssimos na sexta à noite, como neste último caso. Além do quê, como já escrevi em outra crônica, mainha é campeã em pedidos, mesmo que seja para os outros. Sem falar ainda que, sexta à noite é sagrada para mim. É um momento de refletir a que horas da tarde vou acordar no sábado, momento exclusivo de curtir minha Carol, noite de relaxar para poder fazer muita travessura com meu Caio no sábado, enfim. Sexta à noite, não rola.

Mas isto foi a perspectiva traste da coisa. É óbvio que também existe um lado bom. Inclusive se falarmos dos pedidos puramente interesseiros daqueles casais que de vez em quando se falam e por isso, não têm intimidade suficiente para dizer abertamente que estão querendo apenas uma coisa.

- Olá, tudo bem?
- (Êita, a Martinha me ligando à meia-noite e quarenta e sete...Aí tem coisa.) Olá, Martinha! Como você tá?
- Sabe o que é Maurício, meus pais viajaram e eu morro de medo de ficar aqui em casa sozinha. (Ai, acho que exagerei na dose.).
- (Bom, vou usar logo a isca mais batida pra ver o que ela realmente quer. Não tô muito afim de romance hoje, não.) Tranqüilo, Martinha. Você deve ser daquelas que “naqueles dias” fica mais sensível, inclusive, mais medrosa, né. Faz assim, eu passo aí, a gente conversa um pouco pra ver se você se acalma...
- Não, Maurício, não estou “naqueles dias”. Sou medrosa mesmo. Mas, só ficar um pouco não adianta. Já pensou se quando você for embora um bandido aparecer? (Meu Deus, agora pareci uma periguete! Ah, foda-se!).
- (Hehehe. Foi sutilmente fisgada!) É verdade, né, Martinha, vai que o porteiro do seu condomínio, o seu Onório, é um ladrão disfarçado! Vou pegar uma muda roupas e ir aí agora!
- (Ai, que maravilha!) Mas vem logo antes que alguém apareça. Acabei de ver um vulto aqui!

Logo ele, o seu Onório, setenta e três anos, de andar vagaroso, com um quarto da visão em cada olho e que já colocou pontes de safena. Se tentasse assaltar a casa de Martinha, o garotão, forte e sarado, Maurício, estaria lá. E então, estaria consumado o pedido interesseiro de Martinha. Afinal, defender-se principalmente do seu Onório, que poderia ser um mau-elemento foi o que fez com que ela ligasse naquele horário para Maurício, não é mesmo. Se bem que, se ele visse, apenas com seu quarto restante de visão o que a tal Martinha usava, ou melhor, que não usava, enfartaria sem cometer delitos.

Bom, mas eu falava dos interesseiros consangüíneos. Já sou impressionado com este tipo, e fiquei mais ainda depois que descobri uma estirpe pior do que o parente distante que solicita favores. Outro dia o Caio, meu filhote de dois aninhos me ligou. Quer dizer, sua avó materna me ligou porque ele pediu. Lá estava eu, feliz da vida ao telefone, perguntando como foi o dia dele, como foi na escola, o que estava fazendo, mas o baixotinho nada respondia. Eu falava, falava, falava e nada. Até que ele rompeu o barulho da linha telefônica:

- Paaaaaaaai!
- Oi, meu filho?
- Compô totolate?
- Comprei, amor! Um chocolate bem grandão pro neném!
- Tchaaaaaaaau!
-....

E sabe do pior? É que amo quando ele é tratante comigo.

27.08.07

TORCEDORES

categorias: Contos
Revoltada com a baixa condição técnica do time do Flamengo, que estava a um jogo de ser rebaixado para a segunda divisão, uma facção da maior torcida organizada do clube tomou uma medida drástica e extrapolada contra a situação.

A atitude desesperada não consistia em apedrejar o ônibus dos jogadores ou pichar a sede da equipe. A decisão tomada pela torcida era muito mais radical e, de fato, um crime. Como resolução do problema, seqüestrariam a mãe do jogador símbolo da má fase do time, aquele que era sempre vaiado, xingado e onde a culpa recaia sempre que o time perdia: o zagueiro Carlão.

Carlão é um desses jogadores contratados por meio de um dêvêdê contendo seus melhores momentos e geralmente é apadrinhado de algum empresário. Jogadores assim não ganham lá um grande salário comparado aos astros de um time, além de se tratarem-se do tipo bem típico de atleta que tem deficiências técnicas nos fundamentos de passe, chute, marcação, cabeçada e, mesmo assim, o técnico acha que ele joga bola enquanto o mundo vê o contrário. Mas enfim...

Era usual ver Carlão entregar o jogo ao adversário com um gol contra, uma furada, uma bola mal matada, um drible dentro da própria grande área, enfim, as lambanças eram rotineiras e pitorescas. E para aqueles torcedores, isto, de forma alguma, poderia acontecer no último jogo do campeonato, onde o rubro-negro precisava vencer para escapar da degola do rebaixamento para a segunda divisão.

Com o plano elaborado e a vítima escolhida, lá foram eles e algum tempo depois, já no cativeiro, os bandidos devidamente uniformizados, chegavam com a vítima.

- É, mané, o Carlão foi uma ótima ixcolha! – Disse um deles, como todos, com forte sotaque carioca.
- Também achei, meirmão! Vâmo tirar esse otário do Mengão!
- Meu filho não é rico, nem tem contrato certo ainda com o time, ele não vai ter o dinheiro pra pagar o reixgate! – Disse a pobre senhora em lágrimas.
- Cala a matraca dessa veia, aí! Bota a mordaça nela também!
- É, e arranja maix umaix camisaix do Mengão aí que tem unhix chegadoix aqui sem uniforme de trabalho!

E se aproximando da vítima, agora amordaçada e vendada, um deles falou:

- Dona Jacira, tu sabe por causa de quê a senhora foi seqüeixtrada? Por causa que teu filho num joga porra nenhuma! – Disse a segunda frase de forma enfática e pausadamente.

Escutou apenas os grunhidos de Dona Jacira tentando falar. E continuou:

- Maix, a culpa num é desse filho da puta, sabe cumé, dona? É da própria puta, a senhora, com todo reixpeito, que botou um zagueiro infilix daquele no mundo! Num tivesse parido uma dixgraça daquela, ele num tava no meu Mengão, botando o time na zona do rebaixamento!

Alguns minutos depois...

- Tuuuuuuu – tuuuuuuuu – tuuuuuuu.
- Alô?
- Carlão?
- É ele. Quem fala?
- Só um inxtante. Pode falar, véia... – Disse ele em tom baixo, tirando sua mordaça.
- Meu filho, me ajuda, me ajuda, me seqüeixtraram, eu tava indo fazer o sacolão, meu filho! – Chorava aos prantos e berros a mãe de Carlão ao falar com o filho.
- O que é isso? Meu Deux, mamãe? – Perguntou um Carlão desesperado.
- Ô Carlão... – Falou um dos torcedores seqüestradores.
- Seus ordinárioix, bandidoix! O que fizeram com mamãe?
- Calma, rapá, calma. Sua mamãe vai ficar bem. Noix, da FOREVIS FRA, vâmo tratar ela igual o Zico com a redonda: na maciota. – E todos os outros capangas riram.
- O quê? FOREVIS FRA? O que é isso?
- É a FORÇA REVOLUCIONÁRIA E VISIONÁRIA DO FRAMENGO! – Entoou a voz de forma vigorosa para dar destaque ao nome da facção. E nisso, ouviu-se gritos, palmas e assobios ao fundo.
- Tudo bem, tudo bem. E quanto vocêix querem? Não tenho muito dinheiro, maix posso ver... - Falou Carlão com voz chorosa, mas foi interrompido pelo meliante.
- Pelo reixgate da senhora sua mãe, nóix quer uma coisa simplix: fique de fora hoje do último jogo do Mengão! – Mais uma vez gritos de apoio e incentivo, palmas e assobios.
- Como é? – Se surpreendeu Carlão.
- Isso mermo! Depoix do jogo, se tu num participar, o Mengão ainda vai tá na primeirona. Aí, a FOREVIS FRA cumpriu o papel e noix solta tua mãe!

Carlão limpou as lágrimas e instável emocionalmente e com o ego dilacerado, perguntou com a voz bem postada.

- E se formoix rebaixadoix meixmo assim?
- Se tu tiver ralado peito, aí a culpa num é tua! A FOREVIS FRA seqüeixtra a mãe do culpado pela derrota. Nóix sempre encontramoix um culpado! Amanhã, depoix do jogo, conversamoix!

Bom, a notícia vazou e era sabido de toda a imprensa que a Operação Segundona foi montada Pela Polícia Civil do Rio de Janeiro para solucionar o caso do seqüestro da mãe de Carlão, que a esta altura era uma agonia só.

O fato acontecera na manhã do tal jogo decisivo. Carlão falou com o técnico e pediu uma reunião para avisar a todos sobre o corrido e o porquê de não jogar aquela, que talvez seria a partida mais importante da existência do clube. Todos entenderam e concordaram com a situação dando força ao zagueiro. E com o fato ocorrido, o treinador do Flamengo foi obrigado a escalar Nilsão, um zagueiro, visivelmente mais habilidoso e melhor jogador que Carlão. E por que o melhor jogador estava na reserva? Bom, isto são coisas que só o futebol carioca explica...

A partida começou e com trinta minutos, o zagueiro Nilsão já tinha salvo um gol em cima da linha, provocado a expulsão de um atacante e como senão bastasse, fez de cabeça em um escanteio, o único gol que dava a vitória ao Flamengo e tirava o time do rebaixamento. Continua --->