COLUNA FANTASMA

Contos, crônicas e outros devaneios.

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Terra Blog

Categoria: Crônicas

28.11.07

HOMENS SÃO TODOS IGUAIS

categorias: Crônicas
Já passavam das vinte e duas horas da sexta-feira quando ele ligou para o compadre.

- E aí? Tá tudo certo pra mais tarde, né?
- Sim, sim.
- Então, olha só, daqui a uma hora eu saio daqui. A Paula quer ir pra balada, mas vou jogar um caô de que estou cansado, com sono, que trabalhei muito...
- Ok.
- Mas e você?
- A mesma coisa.
- Como assim a mesma coisa?
- A mesma coisa! – Repetiu em tom forte, seguido de um breve silêncio de ambos. Deu pra escutar o som da linha telefônica.
- Ah, entendi! Você também vai sair daí daqui a uma hora!
- Putz, até que enfim, né...
- Então ok. Daqui a uma hora te encontro no Pão de Açúcar pra gente comprar a cerveja.
- Tranqüilo.
- Daí a gente...
- Gustavoooooooo! Vidinha, pega a toalha pra mim?
- Tô indo, vida! Preciso desligar! A Paula tá saindo do banho! Daqui a uma hora então.
- Belê.
- Quem era, amor?
- Era o Gustavo. Queria saber se eu estarei com o Caio amanhã.
- Ué, mas a esta hora?
- (Fodeu!) Er...Bom, é que, digo...É que ele acabou de ver um comercial de um circo que vai estar na cidade amanhã.
- Mas você nem vai pegar o Caio amanhã...
- (Ai, fodeu, fodeu!) Ah...É verdade, né? Sabe que eu nem lembrava? Vou falar pra ele amanhã...Hum, a gente pode começar a ver o filme. Tô meio cansado. – Disse ele bocejando.

Meia hora depois.

- É melhor eu ir, amor. Mal tô conseguindo ver o filme de tanto sono...– Disse, mais uma vez, bocejando.
- Tá bom, amor. Boa noite pra você.
- Pra ti também! – Bocejou novamente.
- Caramba, Fernando, tô até preocupada com esse seu sono. Vai com cuidado, ok.
- Tá bem. Tchau, amor.
- Tchau.
- Alô, cumpadi? Tô saindo da casa da Carol agora. Vai comprando a cerva pra gente não perder tempo!
- Compro uma ou duas caixinhas de Skol?
- Duas, porque esta madrugada promete muito! Hehehehe.
- Hehehehe. Beleza!

Algumas horas e muitas cervejas depois.

- Se eu soubesse que iria me dar mal desse jeito, teria ficado na casa da Paula. – Disse ele com a voz meio fanha.
- Rá! Olha pra isso! Deixa de ser cuzão, Gustavo, seu bêbado! Pô, cumpadi, vai dizer que não valeu nem pela cerveja? – Disse ele, também com a voz embriagada.
- Valeria mais ainda se eu não tivesse perdido o prêmio!
- Hahahaha...Grande coisa! Dividi o prêmio contigo! E foi por diferença de quantas mesmo? Umas quatro, cinco?
- Quatro, cinco? Caralho, Fernando! Que exagero!
- Exagero ou não, eu ganhei!
- Tá bom, Fernando, tá bom! Quero ver semana que vem!
- Ok! Semana que vem tem de novo, então!
- A gente só precisa inventar uma desculpa melhor pras meninas....
- É mesmo! Essa desculpa esfarrapada de hoje não cola mais!
- E, rapá, cê tá doido! Não gosto nem de imaginar se a Paula e a Carol imaginam uma coisa dessas. Acho que elas até perdoariam a gente se nos vissem com outra mulher...Agora, seria traumatizante pras elas descobrir que as trocamos, numa sexta-feira, pela Segunda Copa Skol de Futebol de Play Station, valendo duas dúzias de cervejas.

23.11.07

PECADO CAPITAL

categorias: Crônicas

Se existe algo que chama minha atenção e me deixa feliz como publicitário e consumidor é o estabelecimento na qual vejo o esmero que os donos tiveram nos mínimos detalhes. Não importa se é uma pequena lanchonete, um salão de beleza ou motel, se há uma comunicação visual, um padrão legal, eu fico feito bobo.

Acontece que, para se ter bom gosto e deixar seu ramo de serviços, com uma cara bonita, não precisa ser uma multinacional. É preciso apenas que os donos tenham visão empreendedora e arrisquem no potencial do seu negócio. O chamado e já piégas, diferencial do serviço.

Pois bem. Esses dias me falaram muito bem de um local que eu iria gostar muito, um barzinho que ficava na Asa Sul. Melhor ainda, usarei a palavra da moda, um bistrô. Ou boteco em intelectualês. Mas este adjetivo, como sempre, foi um dos meus pré-conceitos até conhecer o local.

Chegando à quatrocentos e doze sul, fiquei surpreso com a pintura vermelha de detalhes amarelo da fachada deste complexo cultural, gastronômico e de entretenimento chamado Rayuela. Eu o chamo assim desde que estive lá, porque de um lado fica o Rayuela, que é, digamos, mais parecido com um barzinho, cujo subsolo abriga uma espécie de taberna/pub para shows de bandas independentes. E do outro é o Rayuela que diz a definição do dicionário para bistrô: um restaurante pequeno e simples, mas aconchegante. Neste tem um bom café, livraria e um local para se fazer festas no andar superior que se assemelha ao conforto da nossa própria casa, com sofás, pufes, tapetes e uma junkbox para tocar os cêdês disponíveis do acervo. E entre os dois ambientes, permeia o clima rômantico a luz de velas nas mesas.

Como eu disse alguns parágrafos atrás, quando estou em lugares que muito me apetecem como este, reparo os mínimos detalhes, começando pelo cardápio, que é um jornalzinho cultural recheado de matérias curiosas e interessantes, cujo, não raro, os freqüentadores acabam o levando para casa. Os pratos da casa são nomes de livros de diversos escritores famosos. Eu mesmo devorei A Hora da Estrela, da Clarice Lispector, e recomendo. Até os forradores, aqueles de papel que ficam entre a mesa e seu prato, são bem desenhados esteticamente e contém trechos de livros de grandes autores.

Honestamente, não parecia que eu estava em Brasília. Senti como se estivesse em um pedacinho qualquer da Espanha, até pela iluminação das velas das mesas, que fazia sombra das silhuetas na parede avermelhada do local. Uma perfeição de fotografia. Devia ter tirado uma foto, porque aí eu poderia dizer que, sei lá, consegui uma dessas promoções de companhia aérea e passei o feriado em Buenos Aires. Pode parecer besta, mas senti até um certo orgulho por estar no local.

Bom, você deve se perguntar se o Rayuela tem alguma coisa ruim, depois de ler este texto tão meloso sobre o local. E eu digo que tem. O Rayuela tem um defeito gigante: não é meu.

***


- Gente, já é o sétimo cliente que fala que veio aqui por conta de um texto num blog chamado Pilastra Fantasma, Espaço Fantasma, sei lá... – Comentou um das donas em tom preocupado.
- Mas isto é bom, não é? – Perguntou o gerente e continuou.
- Poderíamos até pagá-lo pra continuar a escrever! Seria uma boa estratégia de marketing pra gerar uma propaganda boca a boca!
- Não sei, não...– Disse a dona pensativa.
- Ué, por que não? – Retrucou o gerente.
- Se ele continuar falando tão bem assim, ao invés de pagar o tal carinha, irei comprar sal grosso. Muito sal grosso.

06.11.07

A PIOR ESTIRPE

categorias: Crônicas
Quando eu acho que já vi todo tipo de homem imbecil, me esqueço que ainda existe um espécime nada raro: o romântico canalha. Eu o chamo assim, porque, antes de um excelente calhorda, ele é um ótimo ator, pois interpreta o homem ideal que muita mulher sonha ou o príncipe encantado que algumas ainda acham que existe.

O romântico canalha em essência verdadeira é um machista que não manda flores, não puxa a cadeira, não se oferece para pagar a conta, não é honesto com os sentimentos alheios, enfim, não é cavalheiro. Todavia, contudo, entretanto, faz uso destes artifícios quando só quer uma coisa delas. Aliás, duas: comer e vazar. Mas antes disso, com seu jeito artisticamente atencioso, ele irá jurar que morre de amor e de saudades, vai conhecer os familiares e amigos, e se ainda assim, ele não conseguir o que quer, irá namorar a vítima, se assim podemos chamar. E quando o sexo enjoar, o que varia entre uma a três transas, ele some. Acaba o amor, finda a paixão.

Eu sempre gostei do filme Don Juan De Marco, de Francis Ford Coppola. Apesar do teor do filme ser um tanto machista, eu achava fantástico aquilo do Don Juan – vivido categoricamente pelo Johnny Depp – tratar a mulher como a coisa mais essencial e perfeita do mundo. A sinceridade do amor que dizia sentir era tanta que me perguntava às vezes se ele realmente não se apaixonava sempre por uma mulher diferente.

O romântico canalha se parece em algumas coisas com o personagem do filme, já que o preto no branco, são ambos falando do que não sentem verdadeiramente para levar uma mulher para cama. A discrepância é que, no filme, Don Juan roubava os corações, ele desfrutava aquele momento quando a mulher estava em seus braços como se fosse a única, a primeira e a última na qual ele até se mataria pelo amor sentido. Todas as mulheres, no fundo, no fundo, sabiam que, pelo menos naquele momento que estiveram com ele, elas foram únicas. Já o patife descrito, quer apenas destruir o coração, dizimar a alma. Ele jamais vai querer o amor de mulher alguma para si, simplesmente porque o romântico canalha é ligado ao superficial e material. Espalhar em alto e bom som e com orgulho a sacanagem feita com alguma mulher é divino a ele, pois precisa constantemente de se auto-afirmar. Ou seja, não é homem, porque homem que é homem, mesmo que sacaneie alguma mulher, não tira sarro, sente remorso. O que não deixa de ser também algo bem demagogo.

Não quero ser advogado de “tolinhas” que são iludidas, o que falo é apenas da existência de sujeitos que nos dias de hoje, podem conseguir sexo facilmente em qualquer balada ou com quaisquer cento e cinqüenta reais, mas ao invés disto, insistem em flautear uma gatinha, que, muito provavelmente após um trauma desses pode virar uma cachorrona.

Acho que fiz esta vasta introdução, para descrever minha indignação com minha raça por conta de um caso que fiquei sabendo tempos desses. Um romântico canalha, ou melhor, um filho da puta mesmo, se aproveitou da inocência e ingenuidade de uma garota de dezessete anos para seduzi-la. Ela se guardava para alguém especial, e achando ter encontrado este alguém, acreditou na história de cinema que o vigarista produziu, dirigiu e atuou. E para completar, arrematou a virgindade dela como Oscar de sua interpretação. O cara tinha quase trinta anos, transou com ela uma vez e desapareceu. E quer saber o pior? É que em conversas de boteco ainda escutei homens endossando a atitude com frases tais quais “Tá vendo? Um filho da puta mais cedo ou mais tarde iria foder com a vida dessa menina e fazer igual ele fez! Então, já que isto vai acontecer de todo jeito, que sejamos nós estes filhos da puta!”, e soltava uma gargalhada. Eu sei, eu sei, frase nojenta, apesar da sutileza cômica. Só que, é legal contar isto quando é com os outros, não é? Será que para a filha ou irmã, seria usado o mesmo discurso?

O problema é que imbecis assim, só existem justamente porque têm outros animais que aprovam tais condutas. Caralho, não canso de pensar qual a graça que um homem vê em tirar a virgindade de uma garota. Na minha opinião, tem que ser muito homem para desvirginar uma mulher. É coisa para quando tem sentimento envolvido de ambas as partes. Ou então, se a garota não se importar e está louca para se livrar do cabaço, perdoando a palavra tosca. Honestamente, fora essas ocasiões, qual a graça? Vai ser doloroso para ela, fatalmente você não vai fazer nem um terço do que faz com uma mulher experiente, vai brincar de cabra-cega (“Não, aí, não!”, “Mais pra lá!”, “Aqui, aqui, aqui!”) e se ela já gostava de você, irá armar um acampamento na porta de sua casa. Enfim, realmente não sei qual a graça. Sei que as virgens de hoje estão bem mais espertinhas, afinal as revistas, amigas e a liberação sexual contemporânea (putz, falei bonito agora!) as deixaram bem informadinhas. Mas mesmo assim, ainda duvido que alguma delas saiba fazer o sabonetinho ou conheça a técnica ninja do Halls preto.

A conseqüência de atitudes patifes como essas dos românticos canalhas, desencadeiam comportamentos femininos cada vez mais rebeldes, como já expliquei em Pé-de-Pano, além de deixar no ar as velhas frases que acirram sempre mais a guerra dos sexos, como “Homem não presta!”, “Homem é tudo igual!” etc etc. E por conta disso, algumas laranjas maduras levam má fama por conta das podres. Então, sugiro algo: se você for homem e discordar de atitudes trogloditas iguais as desses caras que enganam, comem e vazam, quando ouvir algum outro homem contar uma história dessas, não precisa discutir, apenas não sorria, continue sério, já que não é piada e não tem a mínima graça.

Agora, se você for mulher, por favor, faça um bem à humanidade: convide o carinha para sair. Daí, depois que vocês já estiverem altinhos, após o sétimo copo, quando estiver prestes a rolar um beijo, dê uma baita joelhada no sujeito, daquelas de aleijar mesmo. Depois você fala que foi a bebedeira. Se estou certo sobre a precisão, indignação e força feminina, este romântico canalha nunca mais poderá transar com ninguém. Pronto. Menos um imbecil no mundo.

21.09.07

PÉ DE PANO

categorias: Crônicas
Por conta de alguns traços de machismo que ainda carrego – apenas os dez por cento necessários para que um homem não aceite um fio-terra – nunca fiquei surpreso em saber que algum homem traiu sua parceira, seja ele casado ou não. E o que me faz pensar isto é a mesma lógica das minhas reações de assustado por uma amiga me dizer que ficou com dez caras numa micareta, e sorridente por um amigo que ficou com dez garotas na mesma folia. Mas entendam, não discrimino, odeio isto. Só que a reação é diferente, não tem como negar. Eu não demonstro, mas sinto isto por dentro.

Isto é ruim? Ruim, não. É ridículo. Porém, por mais que eu me esforce, não consigo extinguir estes machismos que adquiri sei lá como. Vai ver que incorporei e alimentei isto através da sociedade no geral, de amigos, da minha criação, das inúmeras revistas de mulher pelada que coleciono ou por qualquer outra desculpa banal que você mesmo queira dizer. E por que me sinto tão controverso e/ou incoerente? Por que falamos de relacionamentos entre homem e mulher, e se todos nós temos hormônios e genitálias, porque não teríamos os mesmos tratamentos? As mulheres são muito mais organizadas, responsáveis e inteligentes que os homens (e isto não é lobby pró-feminismo, apenas a verdade), e talvez por isso eu fique encafifado, pois as mulheres estão sendo tão burras quanto nós homens, que trocam tudo por nada, uma família por uma mocréia, uma vida conjunta por uma noite e por aí vai. As mulheres têm que ser muito mais grandiosas que as pequenezas de nós, homens. O problema, óbvio, é a questão da mão-dupla, afinal, por que elas darão a vida em um relacionamento se muito homem não dá? E antes ser burra a ser chifruda sozinha.

É por isso que, se nunca fiquei surpreso com o fato dos homens serem infiéis, também não tenho mais achado tão diferente quando as mulheres o fazem. Como eu disse, direitos iguais. Nenhuma mulher merece se matar pelo relacionamento se o bonitão está lá cagando e andando. E acho que agora cheguei ao ponto ideal para ilustrar o que quero dizer.

Conheci dois caras destes que pensei que nunca mais encontraria na vida. Dois caras boa pinta, com bons empregos, nível intelectual elevado, casados, tem filhos, mas daqueles que se julgam os machões da parada: “Porra, saí no sábado à noite, peguei uma gata!”, disse ele. “Ué, mas você não é casado? Que papo é esse de que saiu no sábado à noite?”, perguntei curioso em meio a risos, ao que ele respondeu: “Rapaz, lá em casa quem manda sou eu!”.

Acreditem, escutei esta ladainha um bom tempo. Nem para os caras usarem umas frases mais legais. Reações como estas são tão arcaicas e clichês, mas tão clichês, que até as frases são batidas: “Lá em casa que manda sou eu!”. Putz...Mal ele se dá conta que, neste exato momento, quem pode mandar na casa dele, mandar na mulher dele, no sentido porco da frase, não é exatamente ele.

Creio que todos sabem que a coisa mais correta a se fazer quando vem algum desejo de querer trair é pular fora, ser franco com seu igual, mas quem pensa assim ou consegue fazer isto é a grande minoria. Logo, aquela sua mulher – aliás, sua não, porque, numa boa, você não deve tratar sua mulher assim – a mulher de um desses caras, de tão destratada, de tão carente, de tão humilhada e ressabiada o que vai fazer? Arranjar um pé-de-pano.

Pé-de-pano é o cara dito profissional. É aquele que foge só de meias quando um desses maridões de neandertal chegam em casa. Ou ainda é aquele que, esperando o machão ir embora de casa, tira os sapatos e sobe as escadas só de meias para não fazer barulho, se escondendo no quarto do filho menor que foi para a aula. E ao contrário do que os cornos pensam, o Ricardão, o outro, o pé-de-pano não é um filho da puta. O filho da puta é o próprio corno. O pé-de-pano é apenas aquilo que a mulher desses caras vem pedindo e querendo deles há muito tempo e os mesmos não o são: um homem.

Não estou levantando bandeira de fidelidade aqui, até porque já fui infiel e cada um faz o que quer da própria vida. O que estou dizendo é que, homem que é homem não destrata a mulher com quem ele está e como senão bastasse ainda sai contando isto como se fosse vantagem. Quando conheço um homem que destrata a própria mulher do jeito que estes dois caras o fazem, já penso: “A mulher desse aí fica com tesão toda vez que o marido sai de casa.”. Caras assim estão errados duas vezes. Primeiro porque não são leais com as pessoas com quem estão. E lealdade é muito diferente de fidelidade. E segundo porque ainda saem contando para Deus e o mundo que destratam as mulheres em casa, que dão uma meia-assistência (“Ah, terça-feira eu dei um trato de leve na patroa e agora ela está mansinha) etc etc etc. Numa boa, se você não trata bem sua mulher, você é um chifrudo em potencial, mas até aí tudo bem, só você sabe. Agora, se é você “quem manda em casa” e ainda conta aos outros, aí meu amigo, todo mundo sabe que você é corno. E o pior: você quem contou.

Li um e-mail destes bem virais certa vez cujo dizia que, mulher insatisfeita é uma máquina colocadora de chifres, o que é a mais pura verdade. Ela pode até se arrepender depois, mas esta é a primeira fase. E se na segunda fase ela gostar? E se houver a décima quarta fod, digo, fase? E se ela teve com o pé-de-pano aquele orgasmo que não sente com o marido, namorado, o que for, há muito tempo? Porque, como nós bem sabemos, as mulheres não traem a esmo como os homens. Se ela traiu, cuidado que pode ser sinal de uma paixão, o que não é um imperativo, afinal, o filme mais repudiado por qualquer homem é Infidelidade, com Richard Gere e Diane Lane. (Não recomendo.). E na boa, se um personagem cavalheiro, amoroso e gentil igual o do filme foi traído, quiçá você, que trata mal sua mulher. E aposto que sua esposa ou namorada não te acha mais atraente que o Richard Gere.

Enfim, ilustrei as duas peças raras aqui porque ainda penso que não existam tantos homens assim, do tipo “Sou foda, como todo mundo, minha mulher boazinha não descobre e nunca fará nada porque é louca por mim!”. Mas se você se identificou com os dois maus exemplos aí, rapaz, faz o seguinte, já vai ficando íntimo do pé-de-pano, pegue o telefone dele. Assim, quando você pensar em chegar mais cedo em casa, dá uma ligadinha antes. Não vai ficar bem para você e nem para ele pegá-lo com a boca na xoxo, quer dizer, na botija. Além do mais, você pode acabar atrapalhando um orgasmo fantástico que sua mulher teria. O que vai deixá-la irritada e insatisfeita. E, como já expliquei, mulher insatisfeita...

12.09.07

O TRATANTE

categorias: Crônicas
De todos os tipos de pessoa, o interesseiro é um dos que mais me impressiona. Fáceis de identificar, estes tipinhos são aqueles que sempre te procuram para pedir algo, sem cerimônia alguma, em vantagem de si e que, obviamente, só pode vir da sua pessoa naquele momento. Pode ser um serviço, um presente, dinheiro etc etc etc. Eu sei, é um tremendo rótulo, mas que o colou não fui eu. E, produto com embalagem ruim, não vende, fica mal falado e todos reconhecem.

De qualquer forma, você, claro, tarimbado e sabendo identificar bem um destes, na hora que vê que ele te procurou, enquanto escuta toda a ladainha de sempre, já pensa: “Será que ela pode pular esta introdução e dizer logo o que quer?”.

Mas os piores interesseiros são os consangüíneos. E o exemplo clássico é o parente que só te vê em festas da família, nas quais você geralmente está contando a hora de ir embora, e ele chega embriagado, com aquele papo de amo você pra cá, somos família pra lá, chora e no meio da semana te liga para, advinha? Pedir empréstimo. É inevitável. Por isso, cuidado com esta categoria de malandro, pois são astutos e tanto as demonstrações bêbadas de afeto, quanto os pedidos de ajuda financeira são feitos, invariavelmente, na presença de mais uma porção de familiares. O que acaba o obrigando a dar o dinheiro – ou você conhece algum parente que paga empréstimo? – àquele seu amado primo-terceiro, da sua prima adotiva, filha daquele tio que você vê raramente, pois ele mora em outro Estado.

Menos pior que esta situação é aquela em que o pedinte usa de subterfúgios para que você não tenha chance de dizer um não bem sonoro. Você vai receber uma ligação inesperada, no meio de uma tarde de sexta-feira, em plenas férias, com sua mãe dizendo:

- Meu filho, sua tia pediu pra eu ver se você poderia levar sua prima, hoje à noite, no ensaio do coral de cânticos religiosos dela...
- Não vou, não, mainha.
- Mas meu filho...
- Ah, mainha, a senhora arranjou a presepada, agora dá um jeito. Tinha que ter pedido pra ela me ligar.
- Mas se ela te ligar, digo, se ela te ligasse, você a levaria?
- Também não. Inventaria uma desculpa.

Diante de minha rispidez, mainha sempre apela para o emocional.

- Meu filho, tadinha, ela não tem como ir...
- Mainha, eu...Ai! Ai! Ai!
- O que foi, meu filho? Que gritos são esses?
- Acho que peguei o gancho do telefone de mau jeito! Que cãibra dolorida! Juro que estava me acostumando com a idéia do coral, mainha, mas agora, acho que não poderei dirigir...
- ...

Vejam bem, não sou um escroto. Só não gosto de pedidos ou favores, interesseiríssimos na sexta à noite, como neste último caso. Além do quê, como já escrevi em outra crônica, mainha é campeã em pedidos, mesmo que seja para os outros. Sem falar ainda que, sexta à noite é sagrada para mim. É um momento de refletir a que horas da tarde vou acordar no sábado, momento exclusivo de curtir minha Carol, noite de relaxar para poder fazer muita travessura com meu Caio no sábado, enfim. Sexta à noite, não rola.

Mas isto foi a perspectiva traste da coisa. É óbvio que também existe um lado bom. Inclusive se falarmos dos pedidos puramente interesseiros daqueles casais que de vez em quando se falam e por isso, não têm intimidade suficiente para dizer abertamente que estão querendo apenas uma coisa.

- Olá, tudo bem?
- (Êita, a Martinha me ligando à meia-noite e quarenta e sete...Aí tem coisa.) Olá, Martinha! Como você tá?
- Sabe o que é Maurício, meus pais viajaram e eu morro de medo de ficar aqui em casa sozinha. (Ai, acho que exagerei na dose.).
- (Bom, vou usar logo a isca mais batida pra ver o que ela realmente quer. Não tô muito afim de romance hoje, não.) Tranqüilo, Martinha. Você deve ser daquelas que “naqueles dias” fica mais sensível, inclusive, mais medrosa, né. Faz assim, eu passo aí, a gente conversa um pouco pra ver se você se acalma...
- Não, Maurício, não estou “naqueles dias”. Sou medrosa mesmo. Mas, só ficar um pouco não adianta. Já pensou se quando você for embora um bandido aparecer? (Meu Deus, agora pareci uma periguete! Ah, foda-se!).
- (Hehehe. Foi sutilmente fisgada!) É verdade, né, Martinha, vai que o porteiro do seu condomínio, o seu Onório, é um ladrão disfarçado! Vou pegar uma muda roupas e ir aí agora!
- (Ai, que maravilha!) Mas vem logo antes que alguém apareça. Acabei de ver um vulto aqui!

Logo ele, o seu Onório, setenta e três anos, de andar vagaroso, com um quarto da visão em cada olho e que já colocou pontes de safena. Se tentasse assaltar a casa de Martinha, o garotão, forte e sarado, Maurício, estaria lá. E então, estaria consumado o pedido interesseiro de Martinha. Afinal, defender-se principalmente do seu Onório, que poderia ser um mau-elemento foi o que fez com que ela ligasse naquele horário para Maurício, não é mesmo. Se bem que, se ele visse, apenas com seu quarto restante de visão o que a tal Martinha usava, ou melhor, que não usava, enfartaria sem cometer delitos.

Bom, mas eu falava dos interesseiros consangüíneos. Já sou impressionado com este tipo, e fiquei mais ainda depois que descobri uma estirpe pior do que o parente distante que solicita favores. Outro dia o Caio, meu filhote de dois aninhos me ligou. Quer dizer, sua avó materna me ligou porque ele pediu. Lá estava eu, feliz da vida ao telefone, perguntando como foi o dia dele, como foi na escola, o que estava fazendo, mas o baixotinho nada respondia. Eu falava, falava, falava e nada. Até que ele rompeu o barulho da linha telefônica:

- Paaaaaaaai!
- Oi, meu filho?
- Compô totolate?
- Comprei, amor! Um chocolate bem grandão pro neném!
- Tchaaaaaaaau!
-....

E sabe do pior? É que amo quando ele é tratante comigo.