COLUNA FANTASMA

Contos, crônicas e outros devaneios.

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Terra Blog

Categoria: Contos

10.12.07

UM DIA DA CAÇA...

categorias: Contos

Átila, definitivamente, é um maldoso. O sacana, inclusive, já perdeu todos os amigos por conta das suas brincadeiras de mau gosto.

O mala leva bem a sério aquele ditado de que perde um amigo, mas a piada, nem pensar. Se derem uma brechinha, ele sacaneia sem pensar duas vezes. E quando cometem uma gafe então? Ele ama. Abaixo seguem algumas das diversas sacanagens que Átila, o tosco e cara-de-pau já aprontou. 

                                                          ***

- Pois é Átila, daí foi assim que aconteceu e...
- Peraí só um pouco. Léo, Léo, chega aí, cara! – Gritou para um amigo que passava de longe.
- Fala, Átila! Beleza?
- Beleza! Chamei você aqui porque eu tava conversando com este meu amigo o quanto alguns nomes são escrotos. Por exemplo, o que você acha de um cara que se chama Gabifran?
- Puta que pariu! Que nome escroto da porra! Caralho, se eu tivesse um nome desses, me matava! Fala sério! Que pais mais filhos da puta, botar um nome desses em alguém!
- Hohohohoho, hahahahahaha, hehehehehehe.
- Do que você tá rindo?
- Hahahahahahaha, espera, deixa eu pegar ar... – Enquanto isto, o outro amigo esperava com a maior cara de paisagem.
- Dá pra falar agora o que é, Átila? – Indagou Léo.
- Deixa eu te apresentar este meu amigo aqui. Leó, Gabifran. Gabifran, Léo. 

                                                        ***


Em casa, Átila estava no sofá com a namorada e o irmão mais velho fez um comentário.

- Putz, Átila, pra quê compra uma carteira tão tosca? A corzinha até que vai, mas ela é grande demais! Pelo amor de Deus, hein?
- Hohohohoho, hahahahahaha, hehehehehehe.
- O que foi? Pra quê a risada? - E Átila olhou pra namorada e disse:
- Amor, por favor, fala pra ele que foi você quem me deu a carteira. 

                                                         ***

- Átila, o que tu tá fazendo no computador da Letícia?
- Hohohohoho, hahahahahaha, hehehehehehe.
- Por que tá gargalhando?
- Ela foi tomar banho e deixou o emeesseene conectado!
- E com quem tu tá falando?
- Com o Armando!
- O que tá falando com ele?
- Olha o diálogo, porra! – Disse, exclamando com um largo sorriso.
- Êita, pô! Você tá se passando pela Letícia! Caraca, deixa eu ler direito! Puta que pariu! A Letícia já deu pro Armando?! Que cabuloso! Como você descobriu?
- Joguei um verde no trouxa, falando que tava com tesão e perguntei a cor da cueca dele!
- Kakakakakaka! Átila, tu é um filho da puta de um sacana mesmo, hein! O que tu vai fazer agora?

Átila com um largo sorriso se calou e digitou em letras rosas garrafais cheias de estrelinhas: “Vem pra cá, Armando, tô sozinha!”. E voltou para atender a porta, esperando na sala juntamente com os outros vinte e três convidados da reunião que Letícia organizou. 

                                                          ***

Átila, muito escroto e cara-de-pau, não perdoava nem mesmo a mãe com suas tosquices. Mesmo que o nome dele estivesse em jogo.

Certa vez, ele estava no banheiro, digamos, brincando consigo mesmo. Como a porta do banheiro não tinha tranca, sua mãe o pegou com a boca na botija, ou melhor, com a mão na massa. Ele, que estava sentado no vaso, rapidamente escondeu as coisas. Sua mãe, um anjo, mesmo percebendo o que Átila fazia, para acabar com qualquer constrangimento e para o bem geral familiar, disse:

- Nossa, que cheiro ruim, meu filho! Você precisa tomar um Leite de Magnésia. – Ao que o tosco gargalhou:
- Hohohohoho, hahahahahaha, hehehehehehe.
- Do que você tá rindo, meu filho?
- Não é número dois, mãe. É punheta mesmo. 

                                                      ***

Mas Átila havia de se dar mal.

- Paixão, me empresta um daqueles gibis de anedotas do seu avô? – Perguntou ele da sala da casa da namorada.
- Átila, eles estão aí na estante, na parte debaixo, onde ficam as coisas da minha mãe. Pode pegar.
- Tá! Brigado!
- Achou, amor?
- Hohohohoho, hahahahahaha, hehehehehehe.
- Que gargalhada é esta?

Ela saiu do quarto e foi ver do que o namorado tanto ria, ao que ele, mostrando um livro de auto-ajuda, com a capa vermelha e um pouco desbotada com o título “Sexo Grupal, Uma Terapia Conjunta”, disse:

- Danadinha sua mãe, hein? Ou será que o livro é do seu pai? Hahahahahahaha.
- Hohohohoho, hahahahahaha, hehehehehehe
- Do que você ri? – Perguntou Átila, se recompondo. E ela, o olhando com todo o cinismo do mundo:
- É que este livro não é de nenhum deles dois, meu amor. Este livro é meu.

18.10.07

TIO PATINHAS OU O SEM NOÇÃO IV

categorias: Contos
Do bangalô em que se hospedavam no litoral nordestino, a brisa que batia na varanda era extremamente convidativa para uma caminhada na praia. Sobretudo quando se está toda serelepe e o namorado dorme o sono e o ronco dos hipopótamos.

Definitivamente, aquela cena dantesca era de dar asco. Catou a saída-de-praia, chapéu, óculos escuros e pôs-se a caminhar. Contemplava os coqueiros, a areia branca, e o sol de rachar às quatorze horas e trinta e sete minutos. Saíra de casa sem beber água e já se sentia completamente desidratada embaixo daqueles quarenta graus na sombra que faziam na cidade, conforme previsão do tempo do jornal de meio-dia. “Também, isto é hora de caminhar na praia? Não fosse meu namorado preguiçoso e espalhado na cama, estaria fazendo amor uma hora dessas. Talvez até dentro da banheira ou debaixo da ducha gelada. Humpf, homens!”. Ela se recompôs de seus pensamentos libidinosos e avistou o que parecia ser um sonho: o carrinho de picolé.

Chupando picolé de mangaba ela já não sentia mais sede. Porém, caminhou por mais dez minutos e desistiu de ir até a outra ponta daquela praia. Ela nunca fora dada aos exercícios físicos, a não ser aqueles que se pratica sem roupa, e caminhar quatrocentos metros para ela foi a gota d’água.

Assim que ela chegou em casa, viu o namorado acordado e sentado à beira da cama. Mal ela chegou e ele já foi dizendo:

- Nos assaltaram!

E ela perplexa:

- Como assim, meu Deus? - E correndo para checar a bolsa, continuou.
- Mas como foi? Entraram no quarto, lavaram a máquina digital, sua carteira, diz logo, ô infeliz!
- Antes de dormir o dinheiro estava todo dentro da nossa caixinha. Mas quando acordei, fui checá-la por acaso...E descobri que nos roubaram dois reais! Dá pra acreditar?

Ela, estarrecida, soltou um leve sorriso de canto de rosto, como se esperasse o namorado falar “Brincadeirinha, amor!”, mas ele continuou sério. Diante disto, ela o olhou com desprezo (daquele jeito bem feminino, cujo se baixam os olhos e as sobrancelhas) enquanto seu namorado ainda resmungava a falta dos dois reais. A feição dela mudou, assim como o restante da viagem, que não foi mais a mesma coisa. Até porque, depois daquilo, o rapaz dava mais atenção à caixinha do que a ela.

Voltando da viagem, já no aeroporto, após pegarem as bagagens...

- Ah, toma. – Disse ela.
- O que é isto? – Ele indagou, olhando a moeda de cinqüenta centavos que a namorada acabara de lhe colocar na mão. E ela, muito irônica, disse:
- Acredita que encontrei na praia o ladrão que nos assaltou? Eu o agarrei pelo pescoço e fiz devolver o que restava do dinheiro que ele levou da gente!
- Jura, amor? E por que você não me disse? Como você sabia? Quem era o ladrão?
- O ladrão era um picolezeiro. Que por sinal, vendia um excelente picolé de mangaba!

Virou-se e foi embora. Após alguns passos distantes do namorado, no saguão do aeroporto...

- Júlia!

Ela se virou, mais serena, disposta a conversar. E ele:

- Não falei que tinham assaltado a gente?!

09.10.07

WORKAHOLIC

categorias: Contos

Tudo é meia-luz e a música é ouvida em alto e bom som. A decoração do local é perfeita nos seus mínimos detalhes, desde o palco bem ornamentado e iluminado que lembra os da Broadway, ao bom gosto dos móveis do local, sejam mesas, cadeiras ou sofás. Os novos freqüentadores ao entrarem ali têm a consciência de que se trata de lugar de nível.

No centro das mesas, os mais caros tipos de whisky são os donos da situação, além de comandar a gritaria nos momentos oportunos. Ali, a tensão e o estresse do cotidiano cedem espaço para as mais curiosas histórias e os mais diferentes tipos de pessoas. Gente importante e engravatada do setor público e privado circula pelo local, assim como belíssimas mulheres maquiadas e provocantemente bem vestidas. Em underwear.

O primeiro show vai começar, os tons de azul da iluminação do clube, mesclado às sombras ficam mais densos. A platéia, noventa por cento masculina, se cala. Uma primeira e belíssima mulher, das pernas bem torneadas, bumbum redondo e acentuado e seios fartos aparece no palco. Alguns surros espalhados pelo clube dizem “É aquela, que foi capa da revista do mês retrasado...”.

Ela se dirige lentamente em direção ao centro do anfiteatro e se agarra a um bastão, uma espécie de pilastra circular metálica, fixada do tablado ao baixo teto do clube. A música barulhenta dá vez a uma canção instrumental, tocada pelo grupo de jazz que está postado em um dos cantos do palco. A luz do clube fica mais turva, e a perfeita iluminação acompanha agora apenas a silhueta da stripper, que começa a dançar sensual e libidinosamente, esfregando-se e deslizando pelo bastão. A mesa de Souza é a primeira em frente ao palco, lugar VIP no clube, mas ele não é um freqüentador assíduo. Na verdade, nem gostava de garotas de programa. Ele foi ao clube com alguns amigos do trabalho que muito insistiram e mesmo assim, só depois que uma reunião que começava às vinte e três e trinta foi cancelada. Tinha grande cargo de chefia na instituição que trabalhava e não era raro sair às duas, três da manhã do trabalho. Sua esposa não gostava, aliás, ela odiava, mas se resignava.

A fogosa stripper sorri para Souza, mas ele, atento, não perde um detalhe da garota. Esta, por sua vez, fica cada vez mais impressionada com ele, tira o sutiã e caminha na direção da mesa e, seminua, deixa cair a linda peça do seu mínimo vestuário no colo de Souza. Os demais gritam, bradam, assobiam e aplaudem. Uma bagunça só. Neste momento, quando Souza está perplexo com a beleza da moça, seu telefone toca. Pelo identificador ele nota que é sua esposa. Antes de atender, ele puxa Carlinhos pela gravata e diz “Eu falei que ia dar merda!”. “Não atende, ô Souza, deixa de ser bundão!”. Ele atende um pouco distante da área vip, mas ainda em meio ao barulho e sua esposa começa o interrogatório.

- Já perguntei, e vou perguntar pela última vez, Souza! Ande você está? Você disse que viria pra casa!

E ele, tentando se esquivar de uma ruiva que senta no seu colo no exato momento, responde como se suplicasse:

- Ok, Lídia, ok amor. Desisto. Eu tô numa casa de stripper, e uma delas está sentada no meu colo. Fui carregado pra cá depois de uma reunião, mas é apenas para desestressar! Eu juro que não fiz nada demais! Você sabe que eu te amo!

Barulho da linha telefônica.

- Souza, você é um grande filho duma puta mesmo! Quando você vai parar com isso? Seu cachorro! Já falei que este seu jeito vai acabar com nosso casamento!
- Mas amor...
- Não quero papo, Souza! Humpf! E ainda me vem com essa desculpa esfarrapada de que está num puteiro! Antes tivesse! Pode ir logo dizendo que reunião é esta que você está!

 

 

 

Obs.: baseado em uma zombaria do colega de trabalho, Alan, sobre meu chefe que é tarado. Por trabalho.

27.08.07

TORCEDORES

categorias: Contos
Revoltada com a baixa condição técnica do time do Flamengo, que estava a um jogo de ser rebaixado para a segunda divisão, uma facção da maior torcida organizada do clube tomou uma medida drástica e extrapolada contra a situação.

A atitude desesperada não consistia em apedrejar o ônibus dos jogadores ou pichar a sede da equipe. A decisão tomada pela torcida era muito mais radical e, de fato, um crime. Como resolução do problema, seqüestrariam a mãe do jogador símbolo da má fase do time, aquele que era sempre vaiado, xingado e onde a culpa recaia sempre que o time perdia: o zagueiro Carlão.

Carlão é um desses jogadores contratados por meio de um dêvêdê contendo seus melhores momentos e geralmente é apadrinhado de algum empresário. Jogadores assim não ganham lá um grande salário comparado aos astros de um time, além de se tratarem-se do tipo bem típico de atleta que tem deficiências técnicas nos fundamentos de passe, chute, marcação, cabeçada e, mesmo assim, o técnico acha que ele joga bola enquanto o mundo vê o contrário. Mas enfim...

Era usual ver Carlão entregar o jogo ao adversário com um gol contra, uma furada, uma bola mal matada, um drible dentro da própria grande área, enfim, as lambanças eram rotineiras e pitorescas. E para aqueles torcedores, isto, de forma alguma, poderia acontecer no último jogo do campeonato, onde o rubro-negro precisava vencer para escapar da degola do rebaixamento para a segunda divisão.

Com o plano elaborado e a vítima escolhida, lá foram eles e algum tempo depois, já no cativeiro, os bandidos devidamente uniformizados, chegavam com a vítima.

- É, mané, o Carlão foi uma ótima ixcolha! – Disse um deles, como todos, com forte sotaque carioca.
- Também achei, meirmão! Vâmo tirar esse otário do Mengão!
- Meu filho não é rico, nem tem contrato certo ainda com o time, ele não vai ter o dinheiro pra pagar o reixgate! – Disse a pobre senhora em lágrimas.
- Cala a matraca dessa veia, aí! Bota a mordaça nela também!
- É, e arranja maix umaix camisaix do Mengão aí que tem unhix chegadoix aqui sem uniforme de trabalho!

E se aproximando da vítima, agora amordaçada e vendada, um deles falou:

- Dona Jacira, tu sabe por causa de quê a senhora foi seqüeixtrada? Por causa que teu filho num joga porra nenhuma! – Disse a segunda frase de forma enfática e pausadamente.

Escutou apenas os grunhidos de Dona Jacira tentando falar. E continuou:

- Maix, a culpa num é desse filho da puta, sabe cumé, dona? É da própria puta, a senhora, com todo reixpeito, que botou um zagueiro infilix daquele no mundo! Num tivesse parido uma dixgraça daquela, ele num tava no meu Mengão, botando o time na zona do rebaixamento!

Alguns minutos depois...

- Tuuuuuuu – tuuuuuuuu – tuuuuuuu.
- Alô?
- Carlão?
- É ele. Quem fala?
- Só um inxtante. Pode falar, véia... – Disse ele em tom baixo, tirando sua mordaça.
- Meu filho, me ajuda, me ajuda, me seqüeixtraram, eu tava indo fazer o sacolão, meu filho! – Chorava aos prantos e berros a mãe de Carlão ao falar com o filho.
- O que é isso? Meu Deux, mamãe? – Perguntou um Carlão desesperado.
- Ô Carlão... – Falou um dos torcedores seqüestradores.
- Seus ordinárioix, bandidoix! O que fizeram com mamãe?
- Calma, rapá, calma. Sua mamãe vai ficar bem. Noix, da FOREVIS FRA, vâmo tratar ela igual o Zico com a redonda: na maciota. – E todos os outros capangas riram.
- O quê? FOREVIS FRA? O que é isso?
- É a FORÇA REVOLUCIONÁRIA E VISIONÁRIA DO FRAMENGO! – Entoou a voz de forma vigorosa para dar destaque ao nome da facção. E nisso, ouviu-se gritos, palmas e assobios ao fundo.
- Tudo bem, tudo bem. E quanto vocêix querem? Não tenho muito dinheiro, maix posso ver... - Falou Carlão com voz chorosa, mas foi interrompido pelo meliante.
- Pelo reixgate da senhora sua mãe, nóix quer uma coisa simplix: fique de fora hoje do último jogo do Mengão! – Mais uma vez gritos de apoio e incentivo, palmas e assobios.
- Como é? – Se surpreendeu Carlão.
- Isso mermo! Depoix do jogo, se tu num participar, o Mengão ainda vai tá na primeirona. Aí, a FOREVIS FRA cumpriu o papel e noix solta tua mãe!

Carlão limpou as lágrimas e instável emocionalmente e com o ego dilacerado, perguntou com a voz bem postada.

- E se formoix rebaixadoix meixmo assim?
- Se tu tiver ralado peito, aí a culpa num é tua! A FOREVIS FRA seqüeixtra a mãe do culpado pela derrota. Nóix sempre encontramoix um culpado! Amanhã, depoix do jogo, conversamoix!

Bom, a notícia vazou e era sabido de toda a imprensa que a Operação Segundona foi montada Pela Polícia Civil do Rio de Janeiro para solucionar o caso do seqüestro da mãe de Carlão, que a esta altura era uma agonia só.

O fato acontecera na manhã do tal jogo decisivo. Carlão falou com o técnico e pediu uma reunião para avisar a todos sobre o corrido e o porquê de não jogar aquela, que talvez seria a partida mais importante da existência do clube. Todos entenderam e concordaram com a situação dando força ao zagueiro. E com o fato ocorrido, o treinador do Flamengo foi obrigado a escalar Nilsão, um zagueiro, visivelmente mais habilidoso e melhor jogador que Carlão. E por que o melhor jogador estava na reserva? Bom, isto são coisas que só o futebol carioca explica...

A partida começou e com trinta minutos, o zagueiro Nilsão já tinha salvo um gol em cima da linha, provocado a expulsão de um atacante e como senão bastasse, fez de cabeça em um escanteio, o único gol que dava a vitória ao Flamengo e tirava o time do rebaixamento. Continua --->

Continuação de Torcedores

categorias: Contos
Enquanto a torcida no Maracanã se refestelava, ecoava a voz do locutor no velho e empoeirado radinho à pilha, em um canto distante e escondido da cidade.

- ...E os jogadores vão para o vestiário! A animação é total! São apenas quarenta e cinco minutos separando o Mengão da primeira divisão no ano que vem! – Dizia aos berros o locutor.
- É noix, cumpadi! Esse Nilsão é muito bom! A FOREVIS FRA alcançou o objetivo!

Acontece que, no intervalo da partida, em uma operação jamais vista pela Divisão Anti-Seqüestro da Polícia Civil do Rio de Janeiro, desmontaram a quadrilha e estouraram o cativeiro da mãe de Carlão, libertando-a. Enquanto isso, Carlão, de uniforme e agoniado, escutava o jogo também em um radinho à pilha, recluso em um canto do vestiário quando seu celular tocou. Era a polícia dando a boa notícia de que felizmente sua mãe havia sido resgatada e estava sã e salva. Carlão abraçou o técnico e os colegas, tão logo chegaram ao vestiário. Prontificou-se ao treinador, que, em um acesso de loucura como o de Zagalo que escalara Ronaldo na final da Copa de noventa e oito, também o mandou a campo. Mas no lugar de Dirceu, o outro zagueiro que fez parceria com Nilsão no primeiro tempo.

O segundo tempo recomeçou e com vinte sete minutos de jogo, Carlão já era xingado de filho da puta em coro pela torcida, devido aos tantos passes errados e sustos que dava a todo momento. Mas o pior estava por vir. Aos quarenta e três do segundo tempo, Carlão numa presepada sem fim, subiu pra cabecear uma bola e como não conseguiu alcançar, pois pulava tão alto quanto uma gilete deitada, meteu a mão na bola, cometendo assim um pênalti. Pênalti este, na qual o time adversário, o pior da competição, converteu em gol.

O jogo acabou e o Flamengo foi rebaixado. Os componentes da FOREVIS FRA choravam copiosamente na delegacia, em um cômodo pátio com tevê de vinte e nove polegadas que transmitia o jogo. Foi quando o delegado e Coordenador da Divisão, Décio, apareceu para levá-los ao xadrez, que ficava em outra parte da cidade. No caminho, acompanhando os policiais e bandidos, os repórteres perguntavam que absurdo era aquele de deixar os seqüestradores, membros da FOREVIS FRA assistirem ao jogo, ao que o coordenador, com um sorriso contido que parecia esconder algum prazer, apenas respondia que havia sido uma regalia galgada pelo advogado da FOREVIS FRA, e que ele não podia se opor à lei. “E quanto a eficiência, o êxito conseguido na Operação Segundona, Delegado Décio? Foi alguma dica ou informação anônima que os ajudaram a solucionar o caso no mesmo dia do seqüestro?”, perguntou outro repórter. Décio então, explicou fatos relevantes do seqüestro e alegou ainda que a rápida e esplêndida resolução do caso foi toda por mérito de sua equipe que se empenhou como em todos os casos. Décio pôs os maus elementos no camburão, entrou no carro e os levou para penitenciária mais próxima. E ninguém, jamais soube que a Operação Segundona só teve tal êxito, porque, naquela divisão da polícia, só trabalhavam vascaínos...