25.07.07
NO PORTÃO DO CÉU
- Olá!
- Pois não, o que deseja?
- Entrar, ué.
- Não pode.
- Por que não?
- Por conta disso aí no seu braço.
- Ué, mas...Peraí, como assim? E quem é você? Sempre soube que quem ficava aqui era São Pedro!
- São Pedro está de férias. E o substituto dele, o João Paulo segundo, foi passar uns dias lá embaixo. Parece que o Bento Dezesseis precisou de uns conselhos, já que seus discursos não andam agradando muito.
- Então o que você tá fazendo aqui?
- Eu sou o substituto do substituto: muito prazer, Pastor Amadeu.
- ...
- Por que essa feição esnobe? Ah, deixa pra lá, o que importa é que você não pode entrar com essa tatuagem aí no braço.
- Como assim? Quer dizer que tatuados não entram?
- Não, porque é pecado. E um pecador não pode adentrar os portões do Paraíso.
- Bom, se quem é tatuado não entra, deve ter entrado pouca gente, né.
- Só entra quem não é pecador. Ou quem se arrependeu de tais ações.
- Então, peraí, deixa eu ver se eu entendi: eu não posso entrar por conta de uma tatuagem. E se um bandido matar uma família inteira, ele também não pode entrar. Ou seja, o mesmo parâmetro?
- Não é bem assim, não. Além do mais, como já disse, o arrependimento dá acesso ao Reino dos Céus.
- Tsc, ah, fala sério, isso não é coerente! E é uma forma de apartheid! Mas tudo bem! Eu tô arrependido de ter feito uma tatuagem. Agora, me deixa passar...
- Calma aí, mocinho. É se arrepender de coração.
- (Caralho, eu vou dar um pau nesse pastor!) Cara, na boa, chega de confusão contigo. És o substituto do substituto. Quero falar com a gerência!
- Não dá, a agenda Dele é muito cheia.
- Se vira, ficar aqui por conta de uma burocracia é que não dá!
- Realmente, ficar aqui não dá! Então, acabemos com a burocracia...Guardas angelicais! Levem esse pecador!
- Ôpa, calma aí, vão com calma, me larga, solta meu braço! Olha só, é Pastor Amadeu, não é?
- Isso.
- Pastor Amadeu, senão me der uma oportunidade de falar com seu supervisor, gerente ou chefe imediato, pedirei ao Chico Xavier fazer uns contatos para estes psicografarem uma carta minha endereçada aos jornais delatando seus inúmeros desvios de verbas da igreja!
- Tenho a consciência tranqüila. Nunca desviei verbas da igreja, além de não acreditar no espiritismo. E, por acaso, esses também não deixo, digo, não podem entrar aqui.
- Eu sei, mas e quem disse que precisa ser vivo ou da verdade quando temos a Revista Veja, a Folha de São Paulo, o Correio Braziliense e a Rede Globo? Ainda mais depois que eu disser que foi um crente que fez isso...
- Podem soltá-lo.
- Agora, deixa eu passar que estou...
- Alto lá, já falei que não pode.
- Chega! - Disse uma voz em eco e de tom agradável e brando.
- Caramba, quem disse isso? Pastor, esse esquema de viva-voz ambiente aqui de vocês é high-tech, hein?
- Não é esquema nenhum, ó pecador. Foi meu Imediato quem falou. Deve ter escutado a arruaça que você estava fazendo. Pronto, satisfeito? Fala com Ele...
- Graças ao Senhor, Tu apareceste! Sabe, o Senhor precisa selecionar melhor Seus funcionários...Mas bem, vamos ao caso. É que... - Então a voz doce e branda em eco o interrompeu.
- Meu filho, lamento informar que...- E o rapaz, também interrompendo:
- Escuta, já tatuei o nome de uma ex-namorada neste braço.
- Eu lembro. Até Eu duvidei quando vi o que fizeste...Mas como Eu dizia, infelizmente...
- Pois então, eu fiz esta outra tatuagem pra cobrir o nome dela.
- É, Pastor Amadeu...
- Pois não, Chefe, meu Senhor!
- Pode abrir os portões para ele.