02.07.07
RÓTULOS
Sempre achei quem comia sushi metido a besta. Não entrava na minha cabeça alguém que gostasse, por prazer, de comer peixe cru, frio, em cubos ou fatias e como se isto não bastasse, com dois pauzinhos. Não, não dava para entender. Deveria haver algo mais além do sabor da comida, talvez o requinte, o preço, enfim, devia estar atrelado também a uma questão de status. Eu entendo que são muitos os adeptos a esta culinária e nada mais normal que isso. Mas, neste rótulo que criei, quem comia tal iguaria só podia querer aparecer ou tirar uma ondinha, logo, um metido a besta. Mas isso foi bem antes.
Eu já havia comido sushi diversas vezes em churrascarias, como prato de entrada, mas segundo o Felipe – que além de síndico de seu prédio e assessor do Lula, também é um sushiman – sushi de churrascaria pode até ser bom, mas óbvio, não é a mesma coisa que comer em um restaurante japonês, pois a diferença é discrepantemente sensível. Então, como ele realmente tinha razão, estas minhas experiências nem entram para a conta. Além do mais, eu comia com talher, sem shoyo e, claro, nem sentia o sabor de que tanto faziam propaganda. Ou seja, um tremendo metido a besta.
Posso afirmar então que, comecei a comer de verdade o tal sushi não faz um ano. E isso se restringe a seis vezes, desde que Silvia, a Lindona, me ensinou a comer. Ou seja, ainda sou muito incipiente neste assunto, ou já diria a Silvinha, uma amiga minha, raso, muito raso nisto, inclusive, para se comer sozinho, já que todas as vezes tive que ser assistido para não cometer nenhuma gafe. A questão é que, mesmo sabendo disso, resolvi comer sozinho, e na praça de alimentação de um shopping cheio e movimentado.
O lado brando da minha consciência me avisava que meu nível intermediário de gastronomia japonesa não permitia fazer isso, enquanto o lado punk e teimoso, e o que eu freqüentemente escuto, dizia o contrário. Para entender esta qualificação melhor, eu explico. Eu já tinha passado a fase do sushi de churrascaria, não os comia mais com talheres, já sabia a diferença entre sushi e sashimi e não despedaçava as peças dentro do shoyo, logo, eu tinha recém saído do nível básico e me encontrava no intermediário, nível caracterizado por conhecer os sushis pelas cores, já que ainda não se conseguiu entender ou decorar o nome de cada um. O nível também é marcado pela insegurança de se pedir sozinho, pois, como eu disse, não dá para dizer “Você pode preparar mais uns do rosa e uns de vermelho e branco também?” ou “Por favor, você poderia me trazer um sushi de sashimi?”. E o nível expert, bom, o nível expert é de alguém que pode, sem problema algum, comer em uma praça de alimentação de shopping cheio e movimentado sem receios e gafes. E sem parecer metido a besta também.
Sentei à mesa com meu prato de sushis, sashimis, shoyo e o hashi ou pauzinhos mesmo. Então, alguém senta à mesa contígua à minha com um sanduíche desses naturebas, cujo se vê mais verde que qualquer outra cor no sanduba. E detalhes como o chaveiro da BMW do seu molho de chaves, a camisa pólo da Lacoste e o seu relógio Bulova me demonstravam claramente que o cara tinha dinheiro (senão o tinha, a Polícia Federal precisa urgentemente fazer uma batida na Feira dos Importados) e quem tem dinheiro, invariavelmente já comeu sushi ou gosta da comida japonesa. Quem disse isso? Eu mesmo.
Quando percebi isto, meu ar de soberba cresceu. Tenho certeza que dava para perceber a aura dela em minha volta, do tipo “Olha, estou comendo sushi.”. Isto mesmo, dei uma de metido a besta, um surto de auto-afirmação. Mas atitudes babacas e trouxas como estas nunca ficam impunes aos olhos de alguém superior: Murphy, é claro.
Eu não sabia o porquê, mas minha cara de entendido em comida japonesa era diretamente proporcional ao manuseio dos pauzinhos. Quanto mais eu tentava parecer um veterano do sushi, mais os pauzinhos me sacaneavam. Tava uma puta dificuldade! Eu não conseguia pegar os malditos sushis! Os sashimis então, nem se fale...No final das contas foi uma lambança total, shoyo para tudo que era lado. Cheguei a ouvir uns risos contidos, e com toda razão, do filho da puta que sentou do meu lado, toda vez que acontecia algo inusitado com minha comida japonesa. Terminei de comer o mais rápido possível, antes que virasse atração de circo. Liguei para o meu AACJ – Assessor para Assuntos da Culinária Japonesa – Felipe, que também é síndico e assessor do Lula, mas isso eu já disse.
- Felipe, a gente pega o sushi com aquelas extremidades fininhas do hashi, não é?
- Óbvio que não, imbecil. Aquele é a parte que se divide um pauzinho do outro. Como alguém ia conseguir pegar com aquele lado dos pauzinhos?
- É verdade...
- Mas por que a pergunta? (Brevíssimo silêncio e barulho da linha telefônica). Por favor, não vai me dizer que você fez isso? – Ele falou em meio a uma voz sorridente.
- (Outra brevíssima pausa) Não, não, claro que não! Tá louco? Era curiosidade, apenas...É que sentei ao lado de um cara na hora do almoço e percebi que ele estava brigando com os pauzinhos. Caiu sushi fora do prato, no colo dele, o idiota lambuzou a mesa e a roupa toda. Daí, reparei na forma que o burrão pegava os pauzinhos e era desse jeito que lhe falei.
- Deve ser um puto que nunca comeu sushi e tava querendo aparecer. Pobre é foda!
- Nem me fale! É cada metido a besta que a gente vê por aí...