COLUNA FANTASMA

Contos, crônicas e outros devaneios.

COLUNA FANTASMA

Contos, crônicas e outros devaneios.
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Terra Blog

Arquivo de: Julho 2007

29.07.07

SIM, EU ACEITO

categorias: Crônicas


Quando eu tinha uns oito anos, namorei a menina mais maravilhosa da turma. Ela era a mais alta, a mais popular, a mais arrumadinha, a mais estudiosa e, é claro, a mais linda, pois sem este adjetivo, de nada adiantariam os outros. Afinal, setenta por cento dos homens se apaixonam pela beleza feminina. Não a beleza unânime, mas a beleza estética, que só ele vê. O resto, os trinta por cento restantes é conseqüência da convivência. E de onde vem a estatística dessa pesquisa? Do Myself Institute, oras. Mas de qualquer forma, isto já é uma outra história.

Mas como eu dizia, namorei esta menina. Eu a amava mais que tudo no mundo, mas como em todo relacionamento, havia um pequeno problema: ela não sabia que eu namorava com ela. E se soubesse, terminaria.

No início da Coluna Fantasma, os textos eram para suscitar o debate, algumas coisas engraçadinhas, além de respostas a e-mails na qual eu não concordava com o teor, e por aí vai. Era também uma forma de me incentivar a escrever constantemente, já que sempre gostei de fazê-lo, mas andava meio relapso com a coisa. Eu redigia os textos sem contar a ninguém sobre a minha Coluna Fantasma. E eu também era o único a passar horas relendo o que escrevi. Igual a minha namorada de oito anos, mas com uma vantagem: minha Coluna jamais acabaria com nossa relação se soubesse que só eu a admirava. Até porque, só eu podia findar nosso caso unilateralmente, clicando em Excluir Blog.

Acontece que, a relação se solidificou. Divulgamos nosso affaire a todos, e hoje, meu blog demonstra reciprocidade ao meu amor por meio dos meus poucos leitores e seus comentários periódicos. Este fato fez com que eu, inclusive, criasse uma espécie de mailing list para os que quiserem ser notificados por e-mail quando há um texto novo.

Outro dia a Dri avisou-me de um Concurso de Blogs da comunidade do Orkut “Eu tenho um Blog”, na qual eu já havia roubado de seu perfil. Resolvi participar do concurso, o que quer dizer que, se trata, até agora, do passo mais importante do relacionamento entre meu blog e eu. E para este acontecimento, sem dúvida, o mais importante da vida da Coluna, cabe minha singela declaração:

Ó Coluna amada, aceite a aliança, digo, o selo aí em cima, como prova derradeira do amor que sinto por você. Mas se me der novamente um “Formato HTML inválido”, peço o divórcio!

25.07.07

NO PORTÃO DO CÉU

categorias: Contos
- Olá!
- Pois não, o que deseja?
- Entrar, ué.
- Não pode.
- Por que não?
- Por conta disso aí no seu braço.
- Ué, mas...Peraí, como assim? E quem é você? Sempre soube que quem ficava aqui era São Pedro!
- São Pedro está de férias. E o substituto dele, o João Paulo segundo, foi passar uns dias lá embaixo. Parece que o Bento Dezesseis precisou de uns conselhos, já que seus discursos não andam agradando muito.
- Então o que você tá fazendo aqui?
- Eu sou o substituto do substituto: muito prazer, Pastor Amadeu.
- ...
- Por que essa feição esnobe? Ah, deixa pra lá, o que importa é que você não pode entrar com essa tatuagem aí no braço.
- Como assim? Quer dizer que tatuados não entram?
- Não, porque é pecado. E um pecador não pode adentrar os portões do Paraíso.
- Bom, se quem é tatuado não entra, deve ter entrado pouca gente, né.
- Só entra quem não é pecador. Ou quem se arrependeu de tais ações.
- Então, peraí, deixa eu ver se eu entendi: eu não posso entrar por conta de uma tatuagem. E se um bandido matar uma família inteira, ele também não pode entrar. Ou seja, o mesmo parâmetro?
- Não é bem assim, não. Além do mais, como já disse, o arrependimento dá acesso ao Reino dos Céus.
- Tsc, ah, fala sério, isso não é coerente! E é uma forma de apartheid! Mas tudo bem! Eu tô arrependido de ter feito uma tatuagem. Agora, me deixa passar...
- Calma aí, mocinho. É se arrepender de coração.
- (Caralho, eu vou dar um pau nesse pastor!) Cara, na boa, chega de confusão contigo. És o substituto do substituto. Quero falar com a gerência!
- Não dá, a agenda Dele é muito cheia.
- Se vira, ficar aqui por conta de uma burocracia é que não dá!
- Realmente, ficar aqui não dá! Então, acabemos com a burocracia...Guardas angelicais! Levem esse pecador!
- Ôpa, calma aí, vão com calma, me larga, solta meu braço! Olha só, é Pastor Amadeu, não é?
- Isso.
- Pastor Amadeu, senão me der uma oportunidade de falar com seu supervisor, gerente ou chefe imediato, pedirei ao Chico Xavier fazer uns contatos para estes psicografarem uma carta minha endereçada aos jornais delatando seus inúmeros desvios de verbas da igreja!
- Tenho a consciência tranqüila. Nunca desviei verbas da igreja, além de não acreditar no espiritismo. E, por acaso, esses também não deixo, digo, não podem entrar aqui.
- Eu sei, mas e quem disse que precisa ser vivo ou da verdade quando temos a Revista Veja, a Folha de São Paulo, o Correio Braziliense e a Rede Globo? Ainda mais depois que eu disser que foi um crente que fez isso...
- Podem soltá-lo.
- Agora, deixa eu passar que estou...
- Alto lá, já falei que não pode.
- Chega! - Disse uma voz em eco e de tom agradável e brando.
- Caramba, quem disse isso? Pastor, esse esquema de viva-voz ambiente aqui de vocês é high-tech, hein?
- Não é esquema nenhum, ó pecador. Foi meu Imediato quem falou. Deve ter escutado a arruaça que você estava fazendo. Pronto, satisfeito? Fala com Ele...
- Graças ao Senhor, Tu apareceste! Sabe, o Senhor precisa selecionar melhor Seus funcionários...Mas bem, vamos ao caso. É que... - Então a voz doce e branda em eco o interrompeu.
- Meu filho, lamento informar que...- E o rapaz, também interrompendo:
- Escuta, já tatuei o nome de uma ex-namorada neste braço.
- Eu lembro. Até Eu duvidei quando vi o que fizeste...Mas como Eu dizia, infelizmente...
- Pois então, eu fiz esta outra tatuagem pra cobrir o nome dela.
- É, Pastor Amadeu...
- Pois não, Chefe, meu Senhor!
- Pode abrir os portões para ele.

20.07.07

FOTOGRAFIAS

categorias: Contos
Por que Juninho casou? Ora, eu te conto porquê, por causa de uma fotografia. Aliás, uma, não, várias. Isto mesmo, Juninho casou-se graças a algumas fotografias...

Juninho era, na maioria das vezes, avesso a fotografias. Odiava quando vinham com algum álbum de família para cima dele. “Pra que diabos eu vou querer saber que o idiota do canto da foto é filho adotivo do tio bastardo dela?”, pensava ele quando acontecia uma dessas. Também não gostava de posar para fotos, pois não se achava fotogênico, e sentia ainda, um ar de exibicionismo nas pessoas que gostavam de se auto-retratar a esmo, principalmente depois do advento da máquina fotográfica digital. Mas depois de Talita, isto mudou.

Juninho conheceu Talita através de um desses sites para se hospedar fotos pessoais. Apaixonou-se ao ver toda sua espontaneidade e sensualidade digital. Postou algumas mensagens nas fotos, e, para entrar no universo dela, resolveu fazer aquilo que jamais pensara: abrir um fotoblog. De fachada, pois continha apenas uma foto. E foi através dele que os dois, trocando mensagens se conheceram.

- Juninho, posta mais fotos!
- Não dá. Minha máquina quebrou...
- Ah, tá...E suas antigas? Não é possível que não tenha nenhuma.
- Sabe o que é...Bom, é que...Ah! Meu computador foi contaminado com um vírus!
- Nossa, então você perdeu tudo do seu HD?
- Não, é que...Aliás, sim, não, digo não. Só perdi as fotos mesmo.
- Ah, tá, ahan. Interessante, um vírus que deleta apenas as fotos do computador...
- Pois é, menina. Esses hackers são coisa de louco, não? Cada dia com uma coisa nova...

O casal começou o namoro e, por influência de Talita – que obviamente descobriu que o fotoblog era apenas uma desculpa esfarrapada para conhecê-la – cada vez mais ele tomava gosto por fotografias. E, ao passo do hobby, o namoro também foi ficando mais sério e chegava a hora de Talita conhecer os pais do seu namorado.

Era tradição da família de Juninho oferecer um jantar às namoradas do filho. E era no Jantar da Namorada (nomenclatura criada pelos próprios pais dele) na qual ele não tinha como fugir, que inevitavelmente e naturalmente aconteceria algo que o deixava apreensivo sempre que lembrava: o ritual onde sua mãe mostrava o álbum com suas fotos, inclusive, as da adolescência.

Juninho era traumatizado com suas fotos de adolescência, se achava muito feio, além de pouco fotogênico. Chegou a rasgar todas as fotos, mas como sua mãe tinha os negativos, ela revelou tudo novamente e as escondeu. Não era só o fato das antigas recordações do filho ficarem perdidas no tempo que a preocupava, mas é porque o Jantar da Namorada, segundo ela, não teria graça sem mostrar as fotos de Juninho desde a infância.

Talita foi bem recepcionada pelos sogros, tudo corria bem, mas ele contava os segundos para que aquilo acabasse logo. Terminado o jantar, o pai de Juninho foi à cozinha servir sorvete para todos. Enquanto isso, a mãe do rapaz, já sentava no sofá, chamando sua nora para sentar próxima a ela, pois tinha umas fotos do Haroldo Júnior (a mãe de Juninho sempre o chamava assim, sobretudo quando as namoradas estavam presentes, mesmo sob protestos dele) para mostrar. Pronto, o ato final do drama de Juninho estava concluído. Acontece que, contrariando tudo o que ele pensava que fosse acontecer naquele momento, não aconteceu. E foi vendo Talita olhar aquelas fotos dele, de forma meiga, boba e singela, que descobriu a mulher da sua vida.

- Juninho, como assim, a mulher da sua vida?
- Cara, na minha adolescência eu era tão feio, mas tão feio, que se eu fosse minha mãe, nem me beijaria! Sinceramente eu tinha dó dela de mão dada comigo em público...
- E?
- E aí que, enquanto ela mostrava estas fotos minhas, a Talita não riu! Minhas ex-namoradas sempre riam, me sacaneavam...A Talita, muito pelo contrário, ela disse que eu era uma gracinha! E falou de um jeito tão sincero, simples e terno, que pensei, putz, se ela disse que eu era uma gracinha, naquelas fotografias horríveis, francamente, só pode ser amor.
- Uma prova de que o amor, realmente, é cego. Mas cadê essas fotos?
- O álbum? Tá ali, em cima da mesa.
- Deixa eu dar uma olhada...É, Juninho, pode casar.

NOMES

categorias: Contos
Em um canto bem distante da cidade...

- Caramba, como você tá linda com esse barrigão!
- Ah, obrigada!
- Já sabe se é menino ou menina?
- É menina! – Diz o jovem pai chegando perto da esposa e de seu compadre.
- E já pensaram em um nome, cumpadi? Por que senão, irei sugerir um...
- Temos um que gostamos muito, mas ainda não estamos certos. Qual você sugere?
- Maria Eduarda!

O pai e a mãe se olham perplexos.

- Credo. – Disse a grávida.
- Nossa, cumpadi, que nome horrível! Quer que sua afilhada tenha nome de pobre? – Falou o pai em meio a risos.
- Feio? Mas...
- Não, este não dá, cumpadi. Deixa pra lá. Já tá escolhido, não é amor? Vai ser aquele nome mesmo, aquele que pensamos, parecendo nome de princesa, bem original.
- E qual será, cumpadi?
- Carolayne Stêphanny.
- ...

11.07.07

MACHISTA E EXIGENTE. OU VICE VERSA

categorias: Contos

- Pois é, Henrique, a Helena é linda, inteligente, esforçada, estudiosa e de boa família. Ah, por acaso, meus sogros me adoram! É também bem-humorada, de um riso frouxo que sempre me coloca pra cima. Tem uns ensinamentos que fazem mudar algumas percepções minhas. Sabe ficar grata e feliz com um simples mimo, não é ciumenta, não implica com o chopinho ou minha pelada de quarta-feira, e muito menos, me liga ou monitora o tempo todo. É organizada com dinheiro, não gasta demais, e mesmo assim, consegue se vestir bem, é classuda, e, além de tudo, é uma dama na sociedade e uma puta na cama, daquelas que não tem frescuras com sexo, pois não preciso mandar ofício carimbado em duas vias pra transarmos. Enfim...

Ele suspirou e baixou os olhos, como em um semblante vazio.

- E depois de todo este discurso sobre sua namorada, Cássio, por que então esta feição de tristeza?
- É que...Bom, ela não tem a bunda grande.

Breve silêncio.

- É, aí complica...