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Contos, crônicas e outros devaneios.

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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2007, 14

14.06.07

COMPULSÃO

categorias: Contos
Fabrício, como todo homem, era um compulsivo sexual. E por conta principalmente disso, seu namoro com Luana foi por água abaixo, pois a pauta de todas as discussões de relação, era o sexo. Luana gostava de sexo, mas Fabrício queria que ela amasse.

Quando terminaram, Fabrício quase enlouqueceu, pois passou um tempinho no zero a zero. Não se arrependeu, pois preferia terminar uma relação na qual estava insatisfeito sexualmente do que trair a doce Luana. E, é claro que ela não soube e jamais saberá qual foi a verdadeira razão do namoro findar.

Bom, a fila precisava andar e Fabrício não tinha como dar vazão ao seu sexual feeling. Só que, já dizia ter passado da fase do flerte enlouquecido, não gostava de putas e a masturbação lhe deixava um vazio sem fim. Era um traço meio feminino, mas para ele, sexo precisava de uma ligação de intimidade, senão as coisas ficavam meia-boca, ou melhor dizendo, meia-bomba. Foi então que Rebeca apareceu.

Rebeca era uma mulher que todo homem deseja. Bonita, do corpão, inteligente e pensava em saliência vinte e quatro horas por dia. Fabrício estava feliz da vida com sua nova namorada e se gabava para os amigo por namorar uma quase ninfomaníaca. Ela realmente gostava muito de sexo. Não tinha pudor quanto a lugares, acessórios, fantasias ou posições. O sonho de todo homem.

O problema é que, Rebeca começou a extrapolar. Procurava material erótico às centenas na Internet, se masturbava diariamente, chegando inclusive, ao absurdo de fazê-lo no trabalho, e ainda queria o Fabrício todos os dias. Mesmo assim, ele achava o máximo, pois com ela não havia rotina. Era sabonetinho para cá, candelabro suíço ali, pinga-chuvinha para lá, Halls preto, óleos térmicos etc etc. Só que com o tempo, o próprio Fabrício começou a ficar assustado. E o ápice aconteceu em uma viagem a uma cidadezinha pacata do Goiás.

A cidade de Pirenópolis é dessas bem hippies, que você faz trilha, vai à cachoeira, faz rafting, fica em pousadas modestas, porém, bem bacanas, escuta reggae o dia todo, e “fumar unzinho, porque ninguém é de ferro, não é amor”, dizia ele para Rebeca. Doce ilusão. Existe algo mais afrodisíaco que viajar a dois para uma cidade pacata dessas? Rebeca que o diga. Não deu folga para Fabrício em instante algum, nem mesmo na estrada, com ele dirigindo, para o deleite dos mais curiosos que sempre passavam fazendo buzinaço. Na cidade então, ela não queria por nada sair do quarto da pousada, a não ser que fosse de madrugada, quando não havia ninguém na piscina. Isto sem falar das trilhas e cachoeiras em que ela sempre dava um jeito de arrastar Fabrício para algum cantinho. Dormir, então, nem pensar. E foi nessa toada durante os cinco dias que passaram na cidade. Rebeca sugava o namorado. Sem trocadilho. Na noite que antecedeu a manhã que iriam embora, Fabrício foi dormir morto e sem força alguma, é claro, depois de satisfazê-la por uma, duas, três, quatro vezes. “Santo Viagra”, pensava ele.

Na calada da noite, durante a madrugada, Fabrício, meio sonolento, sentiu a mãozinha esperta de Rebeca o tocando. “Ai, fodeu!”, pensou ele. Rebeca continuou com carícias, enquanto Fabrício, primeiro com leves trejeitos e depois com movimentos mais bruscos, se esquivava, tirando o braço dela enquanto se virava na cama. Depois de longos minutos sem sucesso, Fabrício começou desesperadamente a suplicar para quem pode mais: “Por favor, meu Deus, por favor!”. E continuou, agoniado e fingindo que estava dormindo. Então aconteceu o pior: o corpo dele começara a dar sinal, retribuindo o carinho de Rebeca! E ele em pensamento “Não fica duro, não fica duro! Não fica duro, porra! A última frase escapara do seu pensamento e foi proferida como um grito de pesadelo no quarto da pousada. Rebeca olhando para ele atônita, sem entender nada, perguntou o que houve. E ele, para não admitir que sua namorada era, digamos, mais sexual que ele, e para não confessar que não dava conta do recado, disse à ela que tivera um terrível pesadelo na qual ficava broxa e por isso, no sonho, gritava chorando “Não fica duro, porra!”. Ela, com carinha de choro e compreensiva disse “Amor, você não vai ficar broxa nunca! Vem cá, que sua safadinha vai te mostrar isso, vem...”.

Após esta viagem, as discussões de relação aumentaram cem por cento e em pauta estava sempre o sexo. Para ela, Fabricio gostava de sexo. E ela queria que ele amasse. Ela acabou parando em uma clínica de viciados sexuais fora do Brasil, para tratar de sua compulsão à base, inclusive, de remédios tarja preta. E ele voltou com Luana, casou-se e nunca mais teve problemas sexuais. Descobriu que preferia caçar a ser caçado.

Um dia, do nada, ele recebe uma ligação do exterior. Alguém falando em inglês se apresenta. Diz ser Michael Douglas, aquele ator viciado em sexo. Em poucas palavras ele diz que conheceu Rebeca e pergunta o que Fabrício fazia para dar conta do recado. “Usa Viagra!”, Fabrício disse. “Mas eu já uso!”, respondeu o ator. “Ah, então chama alguém para ajudar!” A ligação ficou muda e Fabrício desligou o telefone.

Semanas depois, Fabrício lê uma manchete em um tablóide, na Internet: “Michael Douglas se cura da compulsão sexual”. Na matéria dizia que a principal inspiração do ator de Hollywood foram os demais viciados da clínica. “Quando escutava as histórias deles, arrancava forças para me curar. Não podia chegar naquele patamar! É insano!”, dizia ele. Na matéria contava ainda que o boato dentro da clínica era de que Rebeca Sales e Michael Douglas tiveram um affair e que aí sim, ele provou do próprio veneno.

E Rebeca? Bom, Rebeca está curada e agora é palestrante voluntária reabilitada para grupos de viciados em sexo. Às vezes, quando bate aquele tesão alucinado de transar em locais públicos, ela logo lembra de sua amiga Cicarelli e pensa, “Melhor não, melhor não...”.