28.05.07
EM CIMA DA HORA
Acordou atrasado, como sempre. E perdeu toda a sonolência depois de ver que horas eram. Levantou desesperado e soltou um sonoro palavrão. Arrumou-se rapidamente e voou para o serviço. Ele deveria estar no trabalho às oito da manhã para executar uma tarefa na qual seu chefe, no dia anterior, o deixara responsável.
- Leandro, deu um pepino aqui com as impressões. Você pode quebrar esse galho pra mim e chegar mais cedo amanhã? É porque isso tem que estar pronto até às dez horas. E eu vou resolver as outras questões do evento.
Linha telefônica muda. Leandro bufou e respondeu.
- Mas, Pereira...
- Pode ou não pode?
E como dizer não ao Pereira? Logo o Pereira, que ano atrás galgou sua promoção, além de sempre ter sido um bom chefe? Sem falar que, se Pereira fosse para rua, Leandro também ia. E por isso seu desespero no trânsito, cortando Corolas e Vectras, dirigindo pelo acostamento, furando sinais, enfim, um festival de loucuras e irregularidades.
Durante o trajeto, Leandro não tirou os olhos do celular um minuto sequer. Chegando ao semáforo que antecedia o amplo estacionamento da empresa, o rapaz começava a se sentir mais aliviado, pois Pereira não deu sinal de vida até o momento. Foi quando notou que o primeiro carro da fila, à espera do semáforo abrir, era o dele. O carro de Leandro chegou a apagar com a moleza e tremedeira que lhe deu nas pernas. Olhou para ver se era mesmo o homem, e era. Quando o sinal abriu, Leandro viu Pereira ir estacionar em sua vaga cativa. Acelerou e estacionou na primeira vaga que encontrou. Pegou sua pasta, o paletó, trancou o carro e correu abaixado por trás das plantas para que Pereira não lhe visse. Esgueirou-se pelas pilastras e exclamava consigo mesmo “Não vai dar, caralho! Ferrou, não vai dar!”.
Pereira já estava um pouco a sua frente e naquela toada, chegaria na sala antes que Leandro. Por sorte, pouco antes da recepção, havia um grupo de amigos de Pereira, onde o próprio parou para cumprimentar as pessoas. Leandro avistou aquilo e não teve dúvida. Deu a volta e passou às costas do grupo, agachado por entre os pequenos arbustos postados anteriores a portaria principal. Passou pelo detector de metais, olhou para trás e viu Pereira se despedindo dos amigos. Subiu as escadas correndo, trombou com outros funcionários no corredor, entrou esbaforido no escritório e logo em seguida na sua sala. Jogou a pasta e o paletó no canto e ligou o computador. Minutos depois, Pereira aparece e abre a porta.
- Cabra bom! E aí, chegou que horas?
- Ah, tem bastante tempo. Acho que umas sete e quarenta, sete e cinqüenta, chefe.
- Certo, certo...E as impressões?
- Só consegui algumas cópias. A impressora deu aquele velhos e bons problemas e travou.
- Tsc, ah. Então, dane-se. Vão levar aquelas impressões de ontem mesmo. Só por conta de uns errinhos bobos... – E continuou:
- Você tá com uma cara assustada. Por que tá todo suado?
- Er, bom, é que, digo...Tô com uma puta de uma febre! Não tenho me alimentado direito, não dormi bem, enfim...
- Ah, então faz o seguinte: me dá as impressões que foram feitas e...
- Não dá! Quer dizer, dá. Aliás, só tenho que pedir pro boy pegar lá embaixo, na impressora.
- Tranqüilo. Faça isso e como recompensa ao seu esforço pode ir pra casa.
- O que é isso, Pereira. Eu vou ali, coff, coff, coff, compro um remedinho e fica tudo bem.
- Nada disso. Vai se cuidar e deixa que eu seguro as pontas aqui.
- Ok, se você insiste...
Pereira dá as costas e sai fechando a porta. Faz menção de que lembrou-se de algo, torna a abrir a porta.
- Ah, tá a maior zona aí fora no corredor. Parece que há uns cinco minutos um doido subiu a escada correndo, trombou com todo mundo...
- Que coisa, não?
- Pois é. O pior não é isso. É que ele trombou com a mulher do Horácio, que caiu no chão e torceu o tornozelo. Sabe quem é o Horácio, né? Aquele grandão, metido a marombeiro, forte igual o diabo?
- Sei, sei...(Glup!)
- Pois é. Ele tá puto da vida e falou que não sai desse corredor enquanto não der uma lição no mal-educado. Tenho até pena quando ele pegar o sujeito.
- É...Sabe chefe, com essa confusão toda, acho que vou esperar um tempinho antes de ir embora, ok.