COLUNA FANTASMA

Contos, crônicas e outros devaneios.

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Terra Blog

Arquivo de: Maio 2007, 26

26.05.07

EM POUQUÍSSIMO TEMPO

categorias: Crônicas
Quinze minutos e ele estava radiante. Até seu astral, que já é constantemente bem humorado, melhorou. Enquanto se arrumava para ir trabalhar, sorria, olhava no espelho e repetia primeiro mentalmente, “Quinze minutos, quinze minutos!”, e como estava sozinho, resolveu extravasar e passou a repetir euforicamente e ainda olhando para o espelho “Quinze minutos, porra! Você é o cara! Quinzão, quinzão!”.

Nem para todo mundo isso é um bom tempo, mas ele considerava aquilo um recorde. Digno, inclusive, de Guinness Book. Até porque, ele nunca conseguiu atingir a marca, até o dia de hoje, cujo deu cabo de tudo em quinze minutos. E, de verdade, conhecendo como eu o conheço, trata-se de uma façanha. Quinze minutos é algo sublime, estupendo, espetacular.

Desbaratinado com a idéia de sua auto-superação, ele andava pela casa, sempre com o sorriso de curinga, tudo por conta dos quinze minutos. Enquanto andava de um lado para o outro da casa procurando seus pertences na hora que descesse para ir trabalhar, o interfone tocou. Era Felipe, com voz de amargura e raiva.

- Fernando, cara, são quase nove horas e vamos nos atrasar de novo. Desce porra!

Olhou em volta, pegou a carteira, celular, relógio, pasta e pendrive. Bateu a porta e desceu o primeiro lance de escadas, ainda pensando nos quinze minutos. Voltou ao lembrar que não havia passado perfume, mas dessa vez não ficou indignado com o esquecimento, coisa que sempre o tirava do sério. E por que? Por conta dos tais quinze minutos. Foi ao banheiro, borrifou um pouco de Humor da Natura e saiu do banheiro, mas voltou novamente só para se contemplar no espelho e disse “Quinzão, quinzão! Tu é escroto!”. Desceu as escadas e entrou no carro sorrindo por dentro. Felipe já o esperava encostado e já foi falando.

- Brother, como você faz pra ser tão enrolado? Tô te esperando já faz um tempão!
- Alto lá: hoje não. Olhe no seu relógio. Estamos atrasados, ok. Mas em relação aos outros dias, estamos adiantados em dez minutos.

E Felipe com voz de ironia.

- Nossa, mas a que devo tamanha pontualidade britânica? Ainda mais vindo de você, que jamais se atrasa?

E Fernando, com um sorriso de orelha a orelha respondeu.

- Meu banho durou só quinze minutos.

CIÚMES DO VENTO

categorias: Crônicas
O ciúme protagoniza situações entre casais que, para quem está de fora assistindo, é sempre um show. Daqueles que dá vontade até de comprar uma pipoca enquanto nos deliciamos com as tais cenas.

Mas não falo de alguma baixaria do tipo o primeiro copo de sangue é meu! Falo de como o ciúme pode coagir um homem a coisas simples, como ver uma belíssima mulher dançando a dança do ventre.

Em Taguatinga tem um barzinho chamado El Franguito, que salvo meu engano, às quartas-feiras costuma ter a chamada Quarta Mística. O ambiente é a meia luz, envolto com velas dispostas sobre cada mesa e a certa hora da noite duas odaliscas geralmente fantásticas de beleza e saúde (e que saúde!) dançam em meio ao bar. E de mesa em mesa, requebram ao som das músicas árabes entoadas para a dança.

Nesse barzinho também tem televisões que ficam em suportes no alto das pilastras de sustentação do local. E sempre tocando videoclipes ou shows de uma vasta coleção de DVD’s que fica no bar central, aonde o dono do estabelecimento comanda o gosto musical da noite no estilo bem lounge quando não há música ao vivo e, em algumas vezes também é o caixa.

Sentado em frente a uma dessas televisões estava o casal de namorados Alfredo e Inês. Ele com cara de banana, daquelas que só a paixão excessiva causa num homem. E ela, tão ciumenta, mas tão ciumenta, ao ponto de mentalmente fuzilar o alvo, objeto de interesse do namorado, com uma cara fechada perguntando “O que foi, sua loira aguada? E você, Alfredo? Porque está lambendo o beiço?”, ao que ele deixando de ser um pouco pamonha e vendo a inquietação dela, responde “Amor, posso beber minha cerveja em paz?”

Pois bem. Eis que adentram o recinto as duas odaliscas. Uma loira e a outra morena, e como já era de praxe, dançam com a espada ao centro do bar, e então dirigem seus umbigos salientes e ululantes às mesas, para o delírio dos namorados e/ou solteiros que ali estão. A mesa de Alfredo e Inês era a única que não tinha vista panorâmica do bar, mas sim da TV e do toldo, pois Inês sempre a escolhia para que Alfredo não ficasse de frente para o resto das mulheres do local.

Na hora em que a dançarina escultural chegou à mesa do casal, na TV só havia a imagem sem áudio do canal do shoptime, que no momento fazia a demonstração de um rodo de cozinha com relógio embutido. Mal a dançarina começou com suas umbigadas, e Inês virou o rosto para olhar Alfredo, que não desgrudava por nada os olhos da TV. A dançarina continuava requebrando a cintura e Alfredo sequer respirava, não movia um músculo ou piscava os olhos estatelados na TV. A dançarina deu a rebolada fatal, e Inês ficando vermelha, com o rosto virado para Alfredo, enquanto ele não tirava os olhos do shoptime. Cansado da situação, Alfredo se estressou e parou de olhar para cima, e não por acaso, justo na hora em que a odalisca parou de dançar em frente à mesa. Ele se virou com cara de paisagem para Inês, daqueles tipos de feições de quem tem algo a protestar ou reclamar, entonou a voz e:

- Amor, assim não dá...

E ela respondeu ríspida, grossa, seca e em tom forte.

- O quê que é?

E ele murchando a voz:

- Não dá pra gente ficar sem um rodo daqueles. Que tal pedirmos um?

AUTO ANÁLISE

Busco sempre ser sincero. Mas são com as palavras, verbais ou escritas, que sou mais bem sucedido. A infelicidade da minha incoerência está no fato de mesclar a sinceridade das palavras e das sensações, com atitudes voláteis no campo sentimental.

Apesar de ter um defeito gigantesco, acho que sou uma pessoa do bem. E como qualquer pessoa, também machuco alguém ou acaba me ferindo em decorrência desse grotesco defeito: a covardia. E por que? Porque não consigo ser leal com os sentimentos alheios. E digo leal do tipo que rompe uma relação com a outra pessoa por não gostar em mesma sintonia e intensidade, só para citar um exemplo. Porque isso é respeitar e ser leal a confiança que o igual te depositou. Não, pelo contrário. Eu tenho medo de ferir fazendo isso. E por isso sou covarde. E por isso sou escroto. E por isso sou duas caras. E claro, com toda razão.

Também sou indeciso. O que não é um defeito muito masculino. E, passando pelo inferno astral que passo, não consigo decidir sobre nada mesmo. Tem quase um mês que sinto um certo quê de solidão. Às vezes penso em volta, embora não tenha certeza que queira. Só que também não consigo me divertir com as frenéticas buscas pelo sexo oposto como antes. Mas também não consigo deixar de buscar. Como conseqüência disso, destrato pessoas que, definitivamente, não merecem tamanha punhalada no peito. Pessoas que mereciam todo o amor que já doei a outras pessoas. E que acho que não mereciam desse amor.

Meu coração é burro. Não se apaixona pelas pessoas certas, aquelas que merecem e deviam conhecer meu lado mais intenso, mais vibrante, mais romântico e mais passional. Meu coração é imbecil, porque simplesmente não sabe o que quer da vida. E se o coração é assim, imagine o dono dele.

A maré não está boa para minha embarcação. As ressacas morais estão afundando o barquinho. E só agora, que estou afundando em melancolia, descubro que não estava ancorado, mas estou ficando.

SALVA PELA SORTE

categorias: Contos
Uma e meia da manhã. O telefone celular de Larissa toca. E caseira como era, quando ela atendeu não se ouviu barulho de conversa ou de música alta do seu lado da linha. Apenas o timbre suave e sonolento de sua voz de menina quebrando o silêncio de seu apartamento.

- Alô...
- Alô, Larissa! É o Medeiros!
- Oi chefe...
- Preciso daquele relatório que preparamos agora à noite.
- Ok, tá na minha pasta. Amanhã cedo eu levo pro escritório.
- Não dá. Preciso pra agora.
- Mas Medeiros, são quase duas da manhã. E não tem nem duas horas que saímos do escritório. Além do mais, eu não tenho fax...
- Então aguardo você aqui?

Medeiros era assim. Amava ligar ou pedir coisas impossíveis, em horários impróprios ou loucos para Larissa, seu braço direito. Para ele não importava a hora, e sim que seus caprichos fossem realizados. Mais ou menos como Meryl Streep em “O Diabo veste Prada”, com a diferença de que a personagem do filme realmente entendia do metiê no qual trabalhava. Ele é aquela espécie de woorkaholic de fachada que não faz nada, pois quem carregava a empresa de consultoria política (ou lobistas mesmo) era Larissa, e enquanto isso, é claro, Medeiros ficava com os créditos de quem deu duro. Ela era tranqüila e não se importava com isso. Só não gostava das presepadas que ele a metia. A coitada não tinha mais vida própria e já colecionava enxaquecas, úlceras e gastrites por conta do trabalho que Medeiros dava. Ambiguamente falando.

De qualquer forma, não recebia mal. Tinha um carro zero, popular, mas zero. Um apartamento próprio, muito belo por sinal, de um quarto (não, não é uma kitnet) e muito bem decorado. E como a moça era solteira, o espaço era mais que o necessário. Para quem é classe-média, duas parcelas de bens como os citados, consomem bastante do salário. E mesmo assim, ela ainda almoçava em bons restaurantes e se vestia elegantemente bem. Realmente Larissa não recebia mal. Mas não engolir desaforo era algo bem específico de sua personalidade. E por conta do seu salário, que pagava suas regalias, elas já se segurava há bastante tempo. Isso talvez explica sua coleção hipocondríaca citada no parágrafo anterior.

“Ainda mando ele pastar, eu juro que mando!”, foi exatamente isso que ela pensou no dia em que Medeiros a acordou duas horas mais cedo só para perguntar que gravata ficaria bem para uma reunião de logo mais. É...Na verdade, um braço direito além de braço direito, também acaba se confundindo com braço esquerdo, as duas pernas, mãe, secretária, enfim, tudo. Só que, até para pessoas, atenciosas e extremamente independentes, além de organizadas competente e profissionalmente, isso uma hora acaba virando uma bola de neve. E quando cisma de rolar, carrega tudo o que vê pela frente.

Larissa já não suportava mais os mandos e desmandos de Medeiros. Que sempre foi muito boa gente como pessoa, mas um “péssimo patrão, mimado e criado com vó”, segundo ela. Naquela semana, a bola de neve começou a rolar. Haveria um evento anual com muitas autoridades e personalidades importantes. E óbvio, sobrava sempre para Larissa, que nessa época trabalhava das seis da manhã até às vinte e três horas da noite, quando ele era muito bondoso. Durante esse período, sem exagero, o celular de Larissa tocava cerca de quinze vezes por hora. Subtraído as sete vezes em que ela não atendia Medeiros, você tem o número de vezes que ela falava por hora ao telefone com o chefe e por extensão uma prévia do seu dia. Larissa até se assustava quando via no identificador de chamadas que a ligação não era de Medeiros. Chegava a atender entusiasmada o telefone.

- Alô! Quem fala?
- Larissa, sou eu, o Medeiros.
- ...
- Estou falando do número de um amigo, pois acabou minha bateria...

Medeiros na verdade tinha uma quedinha por Larissa, que óbvio, dispensava o chefe com certa sutileza. “Aonde ganha o pão, não se come a carne”, ela citava um ditado do próprio pai. Medeiros não era mau partido. Mas era casado, o que ia contra todos os valores de Larissa. Ela própria não se achava lá essas “coca-colas”, mas tinha uma beleza exótica e um charme de dar tesão até mesmo nas próprias amigas. Sobretudo quando punha seu tailler risca de giz, e de óculos de grau, prende o curto cabelo loiro deixando a nuca com visível tatuagem a mostra. Sem dúvida sua beleza também merecia uma parcela das ligações dele.

Bom, o tal evento anual estava todo nas costas de Larissa, como sempre, pois Medeiros gostava dos holofotes e enquanto isso, a moça carregava o piano. Já passavam das duas da tarde e nada de Larissa almoçar. E seu estresse era medido diretamente proporcional ao tempo que ficava sem almoçar. Isso somado a tensão que ela vivia nos bastidores do evento para que Medeiros sorrisse para câmeras e fotos, definitivamente não teria um resultado muito legal. Para Medeiros, é claro. Pois então. Ela largou tudo que estava fazendo e em alto e bom som, em meio a confusão no saguão do famoso hotel em que acontecia o evento, falou: “Chega! Já chega! Que o Medeiros vá pro inferno! Vou almoçar e ir pra casa dormir!” E saiu cantando pneu com seu Palio, que estava estacionado em uma das vagas Vip’s para os organizadores, próximo a entrada. Algumas pessoas que trabalhavam com ela até se surpreenderem, já que conheciam apenas o lado dócil da moça.

Depois de rodar cerca de dez minutos, resolveu para numa entrequadra para refletir. Ela pensou bem e achou que era melhor ponderar o que havia feito. Ainda haviam algumas parcelas do carro e muitas do apartamento a serem pagas. E o Serasa não espera você arrumar outro emprego. Saiu do carro e com um pequeno bilhete nas mãos ela entrou em uma das muitas lojas da quadra comercial. De repente saiu da loja com o sorriso de orelha a orelha, vibrante, alucinada. E o telefone que já tocava de forma desesperada, tocou novamente. E foi atendido.

- Alô, Larissa, você é louca?! Onde você está? Estamos te procurando...
- Peraí cumpadi! Quem tá falando?
- Quem tá falando, digo eu. Quem é você? Cadê a Larissa? Fala pra ela que o chefe dela que tá mandando ela atender esse negócio!
- Aí, chegado, esse telefone não é dela mais não.
- Como assim? Ainda agora era! Seu marginal, você assaltou ela!
- Alto lá, praiboi! Quebrado sim, ladrão, jamais! Já falei que esse número não é mais dela. - E continuou:

Continuação de Salva Pela Sorte

categorias: Contos
E continuou.
- Na verdade, nem eu saquei muito das idéia da dona. Ela saiu da lotérica pulando, gritando e quando pedi um trocado por ter vigiado o carro, ela me deu o celular e disse “pode ficar!”. Celularzão de bacana. Gostei da gorjeta.

Larissa só apareceu na empresa um mês depois. E soube que o evento tinha sido um fracasso, que Medeiros tinha ficado arruinado, que todos os jornais locais noticiaram o fiasco que foi. Na hora que Medeiros a viu na recepção, chegou a bufar. Sem controlar a vermelhidão que corava o rosto, visivelmente irritado, foi em sua direção e falou:

- Bom, dona Larissa, muito bom! Muito bonito a senhorita não ter conseguido cumprir com suas obrigações! Some e agora vem aqui, com a cara limpa, pedir o emprego de volta! Pois não adianta...- E Larissa o interrompeu.
- Não, Medeiros. Eu não estou aqui pra reaver meu emprego. Eu quero mesmo é comprar a Medeiros Cosultoria de você.
- Como assim?
- É exatamente o que escutou. Quanto você quer?

E ele sentindo a firmeza de Larissa, respondeu com voz titubeante.

- Você não tem bala pra isso! Além do mais, a empresa não está à venda!
- Tem certeza, Medeiros? Pelo que tenho lido, depois daquele evento, a empresa vai de mal a pior. E é melhor me vender do que entrar em concordata...Põe o preço, eu pago bem.

Medeiros soltou uma gargalhada e rindo, falou:

- O que é? Ganhou na Mega Sena, é?
- Não. Na Super Loto mesmo.

Depois de explicado tudo direitinho, fecharam um acordo bom para ambas as partes. E então Larissa começou a tocar a antiga Medeiros Consultoria e agora LC (de Larissa Cavalcante) Consultoria Empresarial. Com o dinheiro da venda da Medeiros Consultoria, Medeiros abriu outra empresa de lobistas, digo outra empresa de consultoria política. Mas não deu muito certo, e menos de um ano depois ele bateu à porta da LC Consultoria Empresarial, que cresceu e agora ocupava um pequeno prédio de seis andares e não mais uma casa de bairro nobre da cidade. E bateu na porta atrás de emprego.

- Oi Larissa...Eu queria te pedir um emprego aqui na LC.
- Poxa Medeiros...Sua situação deve estar difícil para você baixar o nariz e vir até aqui, não é?
- Caramba, Larissa, o que eu fiz pra você? Sempre fui legal contigo. Tinha até uma quedinha por ti...Pra quê isso? Esse olhar cínico e essa voz de sarcasmo?
- Por nada, Medeiros. Você sempre foi ótimo como pessoa. Já como chefe...- E Larissa continuou desabafando.
- Qual a necessidade de me ligar às vinte e uma horas, no meio do aniversário de uma paquera minha pra eu levar uns documentos, ditos cruciais? E tem mais: quando chego no restaurante o que havia dentro do envelope era um colar de pérolas, um mimo de presente para uma das suas mil amantes que estava jantando contigo?
- É que...
- É que, nada! E chega de balela! Não comprei a empresa de você por um mau preço. Paguei bem. E não me estranhe. Essa postura não é o excesso de dinheiro. É apenas o que eu devia ter dito a você há muito tempo!
- Então deixa eu ir...

Então ela se recompôs.

- Calma! Você não quer o emprego?
- Quero. Sabe, Larissa, não me dei muito bem com a empresa e não sei o porquê...
- Eu sei: você não devia ter nem uma babá como eu por lá! Bom, no mais tudo bem. O que você acha de ser meu assessor direto?
- Por mim tá ótimo! A velha parceria de antigamente...

E Larissa com ar cínico...

- Ahan...

No mesmo dia, ou melhor, na madrugada do dia seguinte, às seis da manhã, o telefone celular de Medeiros toca. E ele com voz rouca e sonolenta atende.

- Alô...
- Oi Medeiros, aqui é a Larissa. Faz um favor pra mim?

E ele com voz de quem é obrigado a aceitar, responde:

- Sim...Qual?
- É que não tomo café-da-manhã sem os meus morangos com chantilly. E acabaram meus morangos...