SALVA PELA SORTE
Uma e meia da manhã. O telefone celular de Larissa toca. E caseira como era, quando ela atendeu não se ouviu barulho de conversa ou de música alta do seu lado da linha. Apenas o timbre suave e sonolento de sua voz de menina quebrando o silêncio de seu apartamento.
- Alô...
- Alô, Larissa! É o Medeiros!
- Oi chefe...
- Preciso daquele relatório que preparamos agora à noite.
- Ok, tá na minha pasta. Amanhã cedo eu levo pro escritório.
- Não dá. Preciso pra agora.
- Mas Medeiros, são quase duas da manhã. E não tem nem duas horas que saímos do escritório. Além do mais, eu não tenho fax...
- Então aguardo você aqui?
Medeiros era assim. Amava ligar ou pedir coisas impossíveis, em horários impróprios ou loucos para Larissa, seu braço direito. Para ele não importava a hora, e sim que seus caprichos fossem realizados. Mais ou menos como Meryl Streep em “O Diabo veste Prada”, com a diferença de que a personagem do filme realmente entendia do metiê no qual trabalhava. Ele é aquela espécie de woorkaholic de fachada que não faz nada, pois quem carregava a empresa de consultoria política (ou lobistas mesmo) era Larissa, e enquanto isso, é claro, Medeiros ficava com os créditos de quem deu duro. Ela era tranqüila e não se importava com isso. Só não gostava das presepadas que ele a metia. A coitada não tinha mais vida própria e já colecionava enxaquecas, úlceras e gastrites por conta do trabalho que Medeiros dava. Ambiguamente falando.
De qualquer forma, não recebia mal. Tinha um carro zero, popular, mas zero. Um apartamento próprio, muito belo por sinal, de um quarto (não, não é uma kitnet) e muito bem decorado. E como a moça era solteira, o espaço era mais que o necessário. Para quem é classe-média, duas parcelas de bens como os citados, consomem bastante do salário. E mesmo assim, ela ainda almoçava em bons restaurantes e se vestia elegantemente bem. Realmente Larissa não recebia mal. Mas não engolir desaforo era algo bem específico de sua personalidade. E por conta do seu salário, que pagava suas regalias, elas já se segurava há bastante tempo. Isso talvez explica sua coleção hipocondríaca citada no parágrafo anterior.
“Ainda mando ele pastar, eu juro que mando!”, foi exatamente isso que ela pensou no dia em que Medeiros a acordou duas horas mais cedo só para perguntar que gravata ficaria bem para uma reunião de logo mais. É...Na verdade, um braço direito além de braço direito, também acaba se confundindo com braço esquerdo, as duas pernas, mãe, secretária, enfim, tudo. Só que, até para pessoas, atenciosas e extremamente independentes, além de organizadas competente e profissionalmente, isso uma hora acaba virando uma bola de neve. E quando cisma de rolar, carrega tudo o que vê pela frente.
Larissa já não suportava mais os mandos e desmandos de Medeiros. Que sempre foi muito boa gente como pessoa, mas um “péssimo patrão, mimado e criado com vó”, segundo ela. Naquela semana, a bola de neve começou a rolar. Haveria um evento anual com muitas autoridades e personalidades importantes. E óbvio, sobrava sempre para Larissa, que nessa época trabalhava das seis da manhã até às vinte e três horas da noite, quando ele era muito bondoso. Durante esse período, sem exagero, o celular de Larissa tocava cerca de quinze vezes por hora. Subtraído as sete vezes em que ela não atendia Medeiros, você tem o número de vezes que ela falava por hora ao telefone com o chefe e por extensão uma prévia do seu dia. Larissa até se assustava quando via no identificador de chamadas que a ligação não era de Medeiros. Chegava a atender entusiasmada o telefone.
- Alô! Quem fala?
- Larissa, sou eu, o Medeiros.
- ...
- Estou falando do número de um amigo, pois acabou minha bateria...
Medeiros na verdade tinha uma quedinha por Larissa, que óbvio, dispensava o chefe com certa sutileza. “Aonde ganha o pão, não se come a carne”, ela citava um ditado do próprio pai. Medeiros não era mau partido. Mas era casado, o que ia contra todos os valores de Larissa. Ela própria não se achava lá essas “coca-colas”, mas tinha uma beleza exótica e um charme de dar tesão até mesmo nas próprias amigas. Sobretudo quando punha seu tailler risca de giz, e de óculos de grau, prende o curto cabelo loiro deixando a nuca com visível tatuagem a mostra. Sem dúvida sua beleza também merecia uma parcela das ligações dele.
Bom, o tal evento anual estava todo nas costas de Larissa, como sempre, pois Medeiros gostava dos holofotes e enquanto isso, a moça carregava o piano. Já passavam das duas da tarde e nada de Larissa almoçar. E seu estresse era medido diretamente proporcional ao tempo que ficava sem almoçar. Isso somado a tensão que ela vivia nos bastidores do evento para que Medeiros sorrisse para câmeras e fotos, definitivamente não teria um resultado muito legal. Para Medeiros, é claro. Pois então. Ela largou tudo que estava fazendo e em alto e bom som, em meio a confusão no saguão do famoso hotel em que acontecia o evento, falou: “Chega! Já chega! Que o Medeiros vá pro inferno! Vou almoçar e ir pra casa dormir!” E saiu cantando pneu com seu Palio, que estava estacionado em uma das vagas Vip’s para os organizadores, próximo a entrada. Algumas pessoas que trabalhavam com ela até se surpreenderem, já que conheciam apenas o lado dócil da moça.
Depois de rodar cerca de dez minutos, resolveu para numa entrequadra para refletir. Ela pensou bem e achou que era melhor ponderar o que havia feito. Ainda haviam algumas parcelas do carro e muitas do apartamento a serem pagas. E o Serasa não espera você arrumar outro emprego. Saiu do carro e com um pequeno bilhete nas mãos ela entrou em uma das muitas lojas da quadra comercial. De repente saiu da loja com o sorriso de orelha a orelha, vibrante, alucinada. E o telefone que já tocava de forma desesperada, tocou novamente. E foi atendido.
- Alô, Larissa, você é louca?! Onde você está? Estamos te procurando...
- Peraí cumpadi! Quem tá falando?
- Quem tá falando, digo eu. Quem é você? Cadê a Larissa? Fala pra ela que o chefe dela que tá mandando ela atender esse negócio!
- Aí, chegado, esse telefone não é dela mais não.
- Como assim? Ainda agora era! Seu marginal, você assaltou ela!
- Alto lá, praiboi! Quebrado sim, ladrão, jamais! Já falei que esse número não é mais dela. - E continuou: