COLUNA FANTASMA

Contos, crônicas e outros devaneios.

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Terra Blog

Arquivo de: Maio 2007

28.05.07

EM CIMA DA HORA

categorias: Contos
Acordou atrasado, como sempre. E perdeu toda a sonolência depois de ver que horas eram. Levantou desesperado e soltou um sonoro palavrão. Arrumou-se rapidamente e voou para o serviço. Ele deveria estar no trabalho às oito da manhã para executar uma tarefa na qual seu chefe, no dia anterior, o deixara responsável.

- Leandro, deu um pepino aqui com as impressões. Você pode quebrar esse galho pra mim e chegar mais cedo amanhã? É porque isso tem que estar pronto até às dez horas. E eu vou resolver as outras questões do evento.

Linha telefônica muda. Leandro bufou e respondeu.

- Mas, Pereira...
- Pode ou não pode?

E como dizer não ao Pereira? Logo o Pereira, que ano atrás galgou sua promoção, além de sempre ter sido um bom chefe? Sem falar que, se Pereira fosse para rua, Leandro também ia. E por isso seu desespero no trânsito, cortando Corolas e Vectras, dirigindo pelo acostamento, furando sinais, enfim, um festival de loucuras e irregularidades.

Durante o trajeto, Leandro não tirou os olhos do celular um minuto sequer. Chegando ao semáforo que antecedia o amplo estacionamento da empresa, o rapaz começava a se sentir mais aliviado, pois Pereira não deu sinal de vida até o momento. Foi quando notou que o primeiro carro da fila, à espera do semáforo abrir, era o dele. O carro de Leandro chegou a apagar com a moleza e tremedeira que lhe deu nas pernas. Olhou para ver se era mesmo o homem, e era. Quando o sinal abriu, Leandro viu Pereira ir estacionar em sua vaga cativa. Acelerou e estacionou na primeira vaga que encontrou. Pegou sua pasta, o paletó, trancou o carro e correu abaixado por trás das plantas para que Pereira não lhe visse. Esgueirou-se pelas pilastras e exclamava consigo mesmo “Não vai dar, caralho! Ferrou, não vai dar!”.

Pereira já estava um pouco a sua frente e naquela toada, chegaria na sala antes que Leandro. Por sorte, pouco antes da recepção, havia um grupo de amigos de Pereira, onde o próprio parou para cumprimentar as pessoas. Leandro avistou aquilo e não teve dúvida. Deu a volta e passou às costas do grupo, agachado por entre os pequenos arbustos postados anteriores a portaria principal. Passou pelo detector de metais, olhou para trás e viu Pereira se despedindo dos amigos. Subiu as escadas correndo, trombou com outros funcionários no corredor, entrou esbaforido no escritório e logo em seguida na sua sala. Jogou a pasta e o paletó no canto e ligou o computador. Minutos depois, Pereira aparece e abre a porta.

- Cabra bom! E aí, chegou que horas?
- Ah, tem bastante tempo. Acho que umas sete e quarenta, sete e cinqüenta, chefe.
- Certo, certo...E as impressões?
- Só consegui algumas cópias. A impressora deu aquele velhos e bons problemas e travou.
- Tsc, ah. Então, dane-se. Vão levar aquelas impressões de ontem mesmo. Só por conta de uns errinhos bobos... – E continuou:
- Você tá com uma cara assustada. Por que tá todo suado?
- Er, bom, é que, digo...Tô com uma puta de uma febre! Não tenho me alimentado direito, não dormi bem, enfim...
- Ah, então faz o seguinte: me dá as impressões que foram feitas e...
- Não dá! Quer dizer, dá. Aliás, só tenho que pedir pro boy pegar lá embaixo, na impressora.
- Tranqüilo. Faça isso e como recompensa ao seu esforço pode ir pra casa.
- O que é isso, Pereira. Eu vou ali, coff, coff, coff, compro um remedinho e fica tudo bem.
- Nada disso. Vai se cuidar e deixa que eu seguro as pontas aqui.
- Ok, se você insiste...

Pereira dá as costas e sai fechando a porta. Faz menção de que lembrou-se de algo, torna a abrir a porta.

- Ah, tá a maior zona aí fora no corredor. Parece que há uns cinco minutos um doido subiu a escada correndo, trombou com todo mundo...
- Que coisa, não?
- Pois é. O pior não é isso. É que ele trombou com a mulher do Horácio, que caiu no chão e torceu o tornozelo. Sabe quem é o Horácio, né? Aquele grandão, metido a marombeiro, forte igual o diabo?
- Sei, sei...(Glup!)
- Pois é. Ele tá puto da vida e falou que não sai desse corredor enquanto não der uma lição no mal-educado. Tenho até pena quando ele pegar o sujeito.
- É...Sabe chefe, com essa confusão toda, acho que vou esperar um tempinho antes de ir embora, ok.

27.05.07

MOTIVOS PARA DEIXAR COMENTÁRIOS EM BLOGS DE CONTOS

categorias: Contos
Em 1998, em Massachusetts, um homem deixou um comentário num blog e, ao fechar a janelinha pop-up, teve uma visão e acertou os números da loteria acumulada, vindo a receber o prêmio de milhões de dólares dias depois, sem sequer ter jogado.

Em 2001, na pequena cidade de Morgantown, West Virginia (a terceira melhor cidade pequena dos Estados Unidos, segundo o livro "The New Rating Guide to Life in America's Small Cities"), o jovem lenhador Ernest Stagliano comentou um texto num blog e foi nomeado cidadão benemérito de Morgantown, segundo dizem, com o mouse ainda na mão.

No mesmo ano de 2001, mas já no segundo semestre, na distante cidade de Kirov, Rússia, uma mulher deixou um comentário num blog (em russo) e foi sorteada na promoção do posto de gasolina, ganhando imediatamente uma casa com vista para os montes Urais e um grande quintal com capacidade para até oito huskys siberianos (cães de trabalho, de porte médio, rápidos, ágeis, fluentes e graciosos em ação, segundo fontes fidedignas).

Um mesmo homem, residente em local não divulgado, deixou comentários diversos em blogs nos anos de 2003, 2005 e 2006 e encontrou um galeão afundado com tesouros incalculáveis, venceu uma prova de soletrar na TV e recebeu permissão do padre local para manter casamento ao mesmo tempo com três competidoras do concurso de Miss Universo - nenhuma vencedora, mas ainda assim, todas as três capazes de ficar bem tanto em trajes de noite quanto de biquini - sem que sua alma tivesse que arder no inferno por isso.

Portanto, antes de passar pelas "N" (ene) oportunidades de deixar comentários contidas neste blog sem se utilizar de nenhuma delas, reflita: em seu lugar, o que Ernest Stagliano faria?


Observação: texto extraído do blog Contos do Intervalo (www.contosdointervalo.zip.net) com a devida autorização do autor.

CINISMO

categorias: Crônicas
Não adianta, faça o que eu fizer, ele vai contra tudo o que eu disse ou quero que faça. Chega a dar agonia. E ainda me olha com ar de doido do tipo “Não tô nem entendendo o que você tá falando”, mas sei que isso é uma máscara que cai pouco tempo depois com uma cara de “Não to nem aí pro que você tá falando”. E ainda me olha com aquele sorriso que dá vontade de matar. De beijos.

“Caio, sai daí agora!”, “Caio, fica aqui!”, Caio, pára com isso!”, “Caio, volta aqui!”, Caio, desce daí!”. Enfim, não adianta. A cabeça do pestinha deve entender tudo às avessas e coloca um não antes de todo verbo das minhas advertências. Como é teimoso, caramba! Dizem que puxou o pai, mas eu afirmo que não! Não sou teimoso! Não adianta! Não sou teimoso!Não sou! Não sou! Não sou!

Mas eu dizia que o Caio tem uma arma letal para desarmar qualquer cara feia de lição paterna: o sorriso. Sempre que o anjinho apronta uma arte, é automática a cara de safado. Como pode ser tão pequenino e saber que abrir a boca e mostrar os dentes daquele jeito nos desmorona? Que moleque foda. Eu tenho certeza que ele pensa “Vou rasgar o encarte do CD, sim! Depois eu dou um sorrisinho, umas beijocas e papai fica bem.” Querem um exemplo? Semanas atrás o Caio estava quietinho no canto dele, sentado de cócoras. Fui lhe dar um beijo e ele não quis, tava agoniado. Ok, ok, não quer beijo? Então beleza. Continuo aqui assistindo o Campeonato Escocês. Olhei para ele novamente e franzi a testa, torcendo para que não fosse aquilo. Caio quando não gosta de ser interrompido, sentado sobre os calcanhares como ele estava, e fazendo grunhidos como aqueles de quem faz força, fatalmente e infelizmente só pode ser uma coisa.

Se eu não estou muito enganado, certa vez em um programa do Luciano Huck, quando Angélica estava grávida, o narigudo fez uma pequena competição sobre qual era, dos atores convidados, o mais pai de todos. Acho que foi o Marcelo Anthony ou Mário Frias, enfim, um deles respondeu, em umas perguntas, que não tinha problema, que gostava de trocar cocô do filho. Ok, realmente não tem problema, já gostar, impossível. Mentira deslavada. Trocar cocô, desculpem o trocadilho infame, é uma merda. Quando ele falou isso, tenho certeza, foi pura invenção. Não tem como gostar daquele odor, daquela cor ou daquela textura. Mesmo sendo do seu filho. Suportar, sim. Gostar, jamais.

Voltando ao assunto, o Caio fez cocô. E lá vou eu, limpar a bundinha do moleque. No banheiro, fizemos o habitual: ele apoiou as mãozinhas na tampa da privada, cantando. Tirei sua roupa e por fim, a temível e argh, fralda. E estava daquele jeito que parecia arte abstrata de pintor desconhecido. Tirei a fralda e é triste, deprimente, olhar para a bunda de uma criança e ver que é como se a gente não tivesse tirado a fralda. Quanta meleca...Foi aí que veio o derradeiro. Não tinha saco de lixo na lixeira e eu, indeciso como sou, fiquei na dúvida entre deixar a fralda cagada no chão e dar um banho nele ou buscar um saco de lixo para jogar aquela porcariazinha fora logo, antes mesmo de lavar a bundinha do meu filho. E, é claro, optei pela opção mais imbecil, a segunda. Imbecil, mas sensata. O cheiro estava muito ruim, e aquela fralda exposta daquela forma, somada a minha dispersão, que não é pouca, poderia acabar resultando em um chão cheio de pegadas mal cheirosas.

Foi aí que busquei pela compreensão dele. “Papai, olha só, eu vou ali na cozinha um instantinho pegar um saco de lixo para jogar o cocô do nenêm fora. Você espera aqui, tá? Tá me ouvindo? Me espera aqui. Eu vou rapidinho”. E ele até que enfim, parece ter assimilado o que eu disse, com um rostinho sereno antes nuca visto. Soltei o bracinho dele, evitei olhar para aquele bundão sujo e fui correndo na cozinha. Em minha casa, não devem ter três metros de corredor que separam o banheiro da cozinha e, mesmo assim, mal cheguei à pia e já ouvi os gritinhos desconexos e uma meia cabeça passar correndo pelo corredor em direção à sala. Que desespero. Vi-me gritando com voz distorcida, cena em câmera lenta e trilha sonora de suspense: “Caaaaaaaaa – iiiiiiiiiiiiiiiiiiiii – ooooooooooooooo!”, seguido de “Puuuuuuuuta - queeeeeeeee – paaaaaaariiiiiiiiiiiiu”. Pronto, lá estava ele, pelado, sentado no sofá da sala, que era branco e agora estava rajado de marrom, muito rajado. Eu estava atônito. E puto da vida. O Caio percebeu isso, e também percebeu que fez lambança. Cínico, safado, danado, gostoso! Ô moleque do sorriso lindo.

CONFESSIONÁRIO OU AUTO ANÁLISE II

Já fui um babão de tão apegado ao meu irmão assim que ele nasceu. Já fui um bom empinador de pipa, e acreditem, já fui sim, um bom driblador no futebol. Já tive alergia a gatos e já fui um exímio nadador de piscina de quintal, até meu papai pular dentro da água e me tirar desacordado para fazer respiração boca-a-boca. Já me queimei no cano de descarga da moto do papai, já andei de bicicleta com a mamãe e já usei pijama para dormir.

Já fui colecionador de álbum de figurinhas dos Menudos que davam prêmios, embora nunca tenha ganhado um sequer. Já fui medroso a ponto de acordar papai para falar do barulho da porta, que batia com o vento e por conta disso, já escondi faca debaixo do travesseiro para nenhum fantasma me pegar. Já fui peralta e rasguei a parte anterior da coxa pulando dos degraus da escada por cima de uma tampa metálica da caixa de fiação telefônica, o que não rendeu dez pontos na perna, já que mamãe e papai estavam trabalhando. Já joguei muito Atari e brinquei muito de espingardinha de madeira que atirava feijões, azucrinando tudo que era passarinho e coleguinha perto de casa.

Já amei Balão Mágico e o “Super fantástico” e odiei quando uma loira entrou no lugar. Já aprendi a amar aquela loira e já escutei discos dessa tal de Xuxa pulando e cantando igual doido na cama do meu primo junto com ele.

Já aprendi que o ensino é pior para quem estuda em escola pública, mas pelo menos é um local onde se aprende a ser mais safo para a vida. E lá mesmo, já aprendi a falar palavrão. Já tirei boas notas e não sabia o que era um MS. Já fui ninja de uma gang chamada “Os caveiras” e fiz perseguições a outras gangs com zarabatanas de antena de TV onde as mortes eram causadas por feijões e festejadas com refrigerante. Mas também já fiz perseguições com revólver, sendo policial e bandido. E o que matava dessa vez era a o susto, da espoleta.

Já fumei bituca de cigarro jogada pela janela, já usei brinco para parecer os “New Kids on the Block”, já competi quem imitava melhor o Tim Maia e o Michael Jackson com meu irmão e nuca ganhei, já torci pelo Vascão só para responder para que time eu torcia e já brinquei de médico com a filha de uma amiga da minha mãe na escada do prédio.

Já apanhei de vara de goiabeira do meu pai, já ganhei carrinho de rolimã onde a maior competição era o do joelho mais ralado, já corri atrás de pipa voada e me traumatizei depois que apanhei de um marmanjo só porque cheguei ao local antes e, por direito - de rua, mas direito - a pipa deveria ser minha. Deveria. Já tomei balão numa bola bonita porque quis levá-la embora na hora que a pelada dos pequenos acabou. Já quebrei vidraça de portaria, já brinquei nos pilotis do prédio até minha mãe me buscar pela orelha, já levei cascudo dos mais velhos nas brincadeiras do bloco por ser desaforado e já andei muito de Skate Prolife detonando com todo o piso do condomínio, que por acaso me rendeu muitos gritos do meu pai.

Já deixei minha mãe doida por colocar mais de dez colegas no meu quarto minúsculo para jogar Master Sytem, já fui o melhor jogador de Bete do mundo, já comprei revista de mulher pelada e escondi do meu pai e da minha mãe. Já usei óculos de grau fundo de garrafa e já tive um grande amor na sexta-série quando eu era feio que dói e claro, fui rejeitado porque olhando hoje, não sei como minha mãe me beijava. Já chorei escutando “The time of my life” na gincana do colégio. Já fiz aula de reforço e nunca mais esqueci equação de primeiro grau.

Já tive um amigo de fazer desenhos cujo ganhei apelido de “Sapo Joe”, já inventei uma porção de apelidos para amigos, já tive inúmeras discussões com colegas de sala, já fui rodeado por amigas e já tive uma agenda recheada de mensagens bacanas dessas mesmas amigas. Já não estive nem aí se o Vascão perdia pro framengo (Quem diria), já bati muito bafo com figurinhas à vera, e já aprendi com um cara, que graças a Deus hoje é meu cumpadi, que ser boa gente é do que o mundo mais precisa, tudo isso porque me emprestou o cartucho “Jogos de Verão” do Master System sem nem me conhecer.

Já chorei muito com a separação dos meus pais. Já amaldiçoei a nova mulher do meu pai por ela viajar conosco para Caldas Novas e por isso, já escondi o sapato mais bonito dela no porta-malas do carro, que foi vendido junto com esse sapato que ela nunca achou. Já quis namorar a filha da nova mulher do meu pai e acabei perdendo o ódio da mãe para me aproximar dela.

Já fui nerds, já usei lentes de contato, já tive muita espinha na cara, e já comemorei a primeira vez que ejaculei. Já fui goleiro e frangueiro. Já treinei na Escolinha de Futebol do Morales, no Guará, já fui muito sacaneado por ser levar gol do meio de campo, já chorei por perder um campeonato, já perdi as lentes de contato por culpa desse choro, já tive um grande amigo de estudo e conversas futebolísticas, o Saulo, e já disputei um campeonato sul-americano juvenil em Divinópolis, Minas Gerais. Já aluguei muito filme pornô e também reproduzi para outra fita a maioria. Já gravei todos os jogos de uma Copa que o Brasil ganhou, já vi a mesma Copa comendo Sparkies e tomando Guaraná Antártica. Já fui cinéfilo de ir ao cinema sozinho e assistir a três sessões no mesmo dia e já usei carteira estudantil de amigo para pagar meia. Já joguei muito Super Nintendo, já perdi tardes inteiras com Street Fighter II na locadora de games, já gastei toda minha mesada com fichas de fliperama quando descobri esse jogo maldito em Cabo Frio, Rio de Janeiro. Já madruguei para zerar jogos e já fiquei sem tomar banho três dias em frente ao videogame.

Já fui roqueiro de ir de camisa preta aos shows dos Raimundos, já passei madrugadas a fio jogando Truco, Pôquer e escutando Iron Maiden, Pink Floyd, Legião Urbana e Dire Straits. Já nadei no mar de gente de um show e quase morri por levar uma queda de cima do pessoal. Já joguei muito basquete com o pessoal da quadra, já conquistei medalhas em jogos marcados contra os times do meu primo e já fui técnico de time uma vez na minha vida, mas ainda volto a ser novamente.

Já voltei a ter o apelido de Sapão, já fui adolescente rebelde e já fumei por auto-afirmação. Já malhei na pracinha e já tomei anabolizantes. Já quis fazer Jiu-Jitsu, já usei as calças lá embaixo e já quis brigar só pelo esporte de apanhar, pois não sei brigar. Já viajei sozinho (o que quer dizer sem os pais) pela primeira vez quando passei um reveillon em Caldas Novas, Goiás, que por acaso foi em 96, e a última vez que saí de Brasília no Reveillon, já tive o maior porre da minha vida nessa época. Já roubei e muito cigarro da minha mãe, já levei tapa dela na cara, já fiquei sem falar com meu pai e já presenciei briga judicial dos meus pais. Já quis fumar um baseado (acredite, é verdade: nunca fumei maconha), mas já curti muito a Luana Piovani. Já vi o Vascão ser Campeão Brasilerio duas vezes, também já fui campeão da Libertadores e da Taça Rio-São Paulo, mas também já fui vice para um Real Madrid que jogava tanta bola quanto o Brasiliense. Já beijei pela primeira vez depois de adolescente numa micareta, já escutei muita música baiana (e ainda escuto), já fui à Micarê, já paguei abadá com mesada parcelada em seis vezes e já arrastei amigos para irem comigo, já levei porrada em entrada de show, já levei patolada de um cumpadi, que me fez sentar em tina com água quente e usar um pequeno suspensório para que meu saco parasse de doer, já fui pego nessa situação pela recenseadora do IBGE e depois, por acaso do destino já beijei a tal pesquisadora.

Continuação do Confessionário

Já virei Dreher e Presidente no gargalo, já viajei pela segunda vez sozinho para Caldas Novas, já fui para a pipoca da Baratona com cinco reais no bolso e me diverti como nunca, já ri demais com as filosofias, histórias e causos do Israel, já levei porrada em comemoração de Copa do Mundo, já vi o Brasil perder a final dessa Copa do Mundo, já fui virgem aos dezessete, já competi quem beijava mais garotas numa balada, já azarei mulheres muito lindas e também mulheres muito desfavorecidas esteticamente, já bebi no Sossega Madalena e sai sem pagar, já pintei o cabelo de loiro, já fui vocalista de banda de pagode no intervalo das aulas, já reprovei o terceiro ano e já tive duas namoradas ao mesmo tempo. Já fui ao samba de quinta a domingo, já economizei o troco do pão de toda a semana para ir ao samba no domingo, já tive mais CD’s de samba e pagode que todo meu acervo, já traí a confiança de um amigo por azarar a namorada dele, que me deu mole, e o pior: não peguei a garota e por isso, já levei isso pro meu caixão todos os dias quando dormia, já tive o perdão dele, já perdi a virgindade aos dezoito. Já tive uma primeira namorada de verdade, cujo não mereci sua dedicação, já acabei namoro por telefone, já encontrei uma atração fatal que me ensinou tudo de cama, já deixei de ir à formatura de painho para ir à Micarê, coisa que ainda não me perdoei, já trabalhei vendendo cartela do Bingão para ir ao Salute Salvador com o Chiclete, já vendi consórcio, já vendi curso de inglês, já trabalhei em corretora de seguros, já trabalhei e muito com telemarketing e já viajei no carnaval e joguei um emprego para o alto por conta disso. Já passei no vestibular sem saber como, já comi dezesste fatias de pizza no Primo Piato, já vi amigos se perderem na droga começando com um simples baseado, mas já vi os mesmo amigos renascerem dela.

Já fui ao Maracanã na final do Mundial da Fifa com o Gonzo, Léo e seu Mirão, para ver a decisão entre Vascão e Corinhthians, já tive pesadelos com o pênalti cobrado para fora pelo Edmundo. Já compus vários sambas com o Geléia, já fiz músicas para muitas paixões que passaram em minha vida, já fiquei desempregado por um bom tempo, já levei uma volta de uma japonesa da faculdade, já me dediquei ao curso, já me formei em Publicidade e Propaganda, já fiz estágio em duas putas agências, e com isso aprendi realmente que as melhores escolas são pagas, já fui redator de agência pequena, já fui demitido sem mais nem menos. Já perdi emprego para preparar portfólio, já apresentei o mesmo em meia cidade, já passei muitas, muita e muitas tardes e madrugadas desempregadas a fio criando anúncios fantasmas. Já traí e fui traído, já arranjei um grande amor, já fiz de tudo por esse amor, já fizemos as coisas mais picantes, já passei por baixarias, já levei tapa na cara, já briguei com a sogra, e feio, já viajei com namorada no carnaval para Caldas Novas e Graças a Deus, já me libertei daquele amor bandido.

Já passei dois anos solteiro, já tive um e-mail chamado fernandofarra, já realizei o maior fetiche sexual masculino e acreditem rapazes, é bom demais! Já fiquei com uma namoradinha de manhã, uma outra à tarde e outra diferente à noite, já encontrei mulheres que não valiam nada, e já encontrei outras muito valiosas nesse período, como Isabela, Jaqueline e Fabíola, que por acaso, é mãe do meu filho, pois já sou pai. Já arranjei um bom emprego graças a um grande amigo de codinome Rei, já usei o mesmo terno para trabalhar, todos os dias, durante três meses. Já viajei para a micareta mais inesquecível de todas, o Carnagoiânia de 2004, já fiz uma bandeira do Chiclete com Banana, cujo sou tiete, essa mesma bandeira já esteve no site oficial, Bell já pegou nessa bandeira três vezes e já tive, inacreditavelmente, meu nome ressoado pelo Barbudo. Já encontrei um grande, um super amor, que eu pensava ser para sempre, já tatuei seu nome no braço e hoje me arrependo disso por sofrer uma grandíssima decepção com esse amor. Já capotei meu lindo Gol bola em um acidente que não fui culpado e que de fato, quase me matou. Já fiquei internado quinze dias, já fraturei a bacia em oito, também já fraturei duas costelas, já fiz transfusão de sangue, já fiquei três meses de atestado, já perdi dez quilos, já fiz fisioterapia e hidroterapia, já tive gases, muitos gases e já ganhei uma cicatriz por conta da cirurgia que me salvou. Cicatriz na qual tenho vergonha, mas que estou começando a me habituar. Já voltei a praticar esportes, voltei a jogar bola, mas há muito tempo não sou mais goleiro e também já parei de jogar bola. Já tive um Palio lindo e já tive que me desfazer do mesmo por culpa de dívidas infinitas. Já me separei desse super amor, já tentei voltar a ser putão, sem sucesso. Já li bons livros, já escrevo muito mais que antes, já sinto falta de não ter prestado atenção às aulas de literatura, geografia, história e português no segundo grau, mas já corro atrás de aprender o mais rápido possível. Já chorei de desepero quando soube que seria pai, e depois já olhei sem cair a ficha quando ele nasceu. Já compreendo melhor as coisas que meu filho pede e faz, e também já compreendo melhor os meus pais, já sinto saudades daquele baixote o tempo todo, já vi o Brasil ser eliminado da Copa com meu filho (tão pequeno e tão pé-frio), já descobri que o melhor som do mundo é da voz dele falando papai e já descobri que isso sim, é amor incondicional.

Em tempo: já vi o Vascão mais uma vez ser vice para o framengo e já vi ir abaixo o meu sonho do bicampeonato da Libertadores da América.

Pronto. Resumidamente, bem resumido mesmo, estão aí as boas emoções que tive nos meus vinte e sete anos de idade. E olhando assim, percebo agora que de tudo que já passei, de todas as emoções e sentimentos, só não fui uma coisa: vazio. Não fui. Pretérito.